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La escena iberoamericana

Brasil. Christiane Jatahy leva ao palco do teatro Sérgio Porto 'Corte seco'

Inspirada no livro Passagens, de Walter Benjamim, e no célebre filme Short cuts, de Robert Altman, a diretora Christiane Jatahy faz de Corte seco a continuação de seus experimentos com as convenções da linguagem teatral. Em cartaz no espaço Sérgio Porto a partir de sexta-feira, a peça mantém as características das duas primeiras etapas da trilogia que que idealizou e realizou com a Cia. Vértice de Teatro: o monólogo Conjugado (2004), estrelado por Malu Galli; e A falta que nos move (2005). O novo trabalho mostra ao público o processo de construção e escolha das cenas que dão corpo à montagem. Assim como a anterior, Corte seco investiga as relações sociais e familiares a partir de um jogo onde o real e a ficção tracejam uma fronteira nem sempre perceptível.

– Quando fiz Conjugado não pensava numa trilogia. Mas comecei a aprofundar minha pesquisa sobre os limites entre a ficção e a realidade, ator e personagem, a verdade e a mentira – explica a diretora, que toma ainda como referência o sistema dramatúrgico de José Sanchis Sinisterra. – Em A falta que nos move radicalizamos tudo numa linguagem híbrida, com muitas histórias pessoais misturadas com ficção. A intenção era a de provocar e estimular o espectador a pensar se a peça se desenrolava sempre do mesmo jeito ou apenas naquele dia.

Corte seco traça o mesmo caminho. Não esconde ou revela o que é verdade ou mentira. Deixa o público na dúvida, pela não definição do território.

– A inquietação surge ao deixarmos transparente e em aberto o jogo do teatro. Quanto mais ampliamos o olhar, percebemos que há sempre algo além do que se vê.

Christiane trabalha sob a consciência da imprevisibilidade: o acidente, a surpresa, o tal corte seco que altera o curso das nossas vidas de uma hora para outra, sem aviso, recado, ao acaso. Num exercício de metalinguagem, ela entra em cena e investe em cortes na narrativa teatral. Edita, a cada apresentação, parte do espetáculo, mudando a ordem e o ponto de partida das cenas.

– Construímos mais cenas do que o necessário para montar a peça. Estas sobras me dão a possibilidade de jogar com o repertório que dá forma ao texto. É claro que há uma coluna que amarra a dramaturgia. Mas os atores sabem apenas a poucos minutos do início o que será encenado durante o espetáculo.

Além da edição e montagem em real time, a diretora deixa correr até sete cenas simultâneas. Um verdadeiro carrossel de representações, que se aproxima e se afasta do público, da frente ao fundo do palco, conforme seu humor.

– É um caleidoscópio de cenas que eu edito ao vivo. Brinco o tempo todo com o imprevisível, com as áreas de segurança que amarram esse mosaico. Mas é claro que tenho pontos de apoio, se não teríamos algo amorfo.

Apesar do caráter fluido e volátil de cada encenação, ela frisa que não se trata de um espetáculo de improviso, mas que cabe, sim, a improvisação.

– Tem horas em que eu não aciono o corte da cena, e aí os atores precisam continuar. Há janelas abertas para o improviso, mas não é a linha deste trabalho, que é marcado, sim, pelo improvável.

Em vez do método usado no último espetáculo, em que relatos de situações vividas pelos atores serviam para delinear a estrutura narrativa, Christiane decidiu lançar um “olhar para a janela”. Processos judiciais, reportagens de jornal, situações presenciadas na rua pelos atores Eduardo Moscovis, Thereza Piffer, Felipe Abib, Ricardo Santos, Stella Rabello, Branca Messina e Leonardo Netto serviram de matéria-prima para o texto. O resultado é uma ficção a partir de uma realidade observada.

– Em A falta..., falávamos da estrutura familiar e da repetição desse mecanismo na vida real. Agora, apresentamos esse mesmo indivíduo olhando para fora, se defrontando com o outro – compara a diretora. – Lido com as relações humanas. Apesar deste olhar para fora, para a cidade, acabamos falando de nós mesmos, nos aproximando do nosso cotidiano.

Com a intenção de transformar o Sérgio Porto num organismo vivo, reflexos da realidade serão transpostos ao palco através de imagens captadas por câmeras de segurança instaladas por perto do teatro. Exibidas ao vivo em monitores de TV instalados no cenário, os atores poderão interagir com os registros.

– As câmeras de segurança nos protegem e nos expõem – diz Moscovis. – A peça toma corpo a partir de histórias fragmentadas e mostra a quantidade de interferências que temos ao longo do dia. O grande estímulo é a possibilidade de inversões e cortes diários da Chris.

Do teatro ao cinema
Após A falta que nos move, a diretora levou o texto ao cinema, num longa homônimo exibido na última edição do Festival do Rio. Fascinada pelo novo meio, ela considera Corte seco o caminho de volta.

– A falta... me levou ao cinema e eu fiquei apaixonada pelo processo de edição. Agora, justo pela edição cinematográfica, eu retorno ao teatro com a ideia de corte. Espero que a peça me leve novamente ao cinema. Mas preciso de mais tempo para refletir.

• Luiz Felipe Reis | Jornal do Brasil | 2009-11-27


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