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La escena iberoamericana

Brasil. Fábula mundo cão

Com o ator Vladimir Brichta no papel principal, o espetáculo Hamelin é cartaz em Fortaleza de hoje a domingo. Em cena, o olhar do espanhol Juan Mayorga sobre a questão da pedofilia.
Alemanha, século XIII. A pequena cidade de Hamelin agoniza: está tomada por uma peste de ratos. Eis que um dia, porém, aparece por lá um flautista que promete - em troca de muitas moedas de ouro, claro -, limpar toda a comunidade apenas com a magia de sua música. Apavorada, a população aceita e garante mundos e fundos para se ver livre daquela rataria toda. Dito e feito. Da noite para o dia, o flautista encantou os ratos e trouxe de volta a tranquilidade do vilarejo. Na hora do pagamento, Hamelin se nega a arcar com o prometido. Irado, o flautista anuncia que o calote iria ser penalizado com aquilo que, ali, se tinha de mais precioso. Mais uma vez, ele toca a flauta. Agora, são as crianças da comunidade que respondem automaticamente ao encanto de sua melodia. A agonia dos pais, traduzida em súplicas e arrependimentos não surte efeito. Desde então, na cidade de Hamelin, por mais que se procure, nunca se encontram ratos, nem crianças.

Espanha, século XXI. O dramaturgo Juan Mayorga atualiza a fábula registrada pelos afamados Irmãos Grimm numa trama que enfoca uma das questões mais preocupantes da contemporaneidade: a pedofilia. ``No texto, essa associação não é feita de forma aleatória. O Juan Mayorga está interessado principalmente em discutir os limites daquilo que é considerado um comportamento bom ou ruim pela sociedade, o limite entre aquilo que deve ser estimulado e aquilo que deve ser condenado. Em que medida, essas figuras envolvidas em escândalos de pedofilia não absolutamente respeitados em outros contextos? Em que medida, quem seduz as crianças não são, também, responsáveis por grandes feitos, como o flautista de Hamelin, que limpou com sua música toda a cidade do terror dos ratos?``, questiona o ator Vladimir Brichta, protagonista da primeira montagem nacional do texto de Mayorga, não à toa batizado de Hamelin.

Na peça, em cartaz no Teatro Celina Queiroz de hoje a domingo, Brichta e outros cinco atores, conduzidos pela encenação criteriosa de André Paes Leme, fazem do palco uma arena de discussão. A pedofilia é problematizada num enredo de apelo policial, investigativo, em que a figura do juiz responsável pelo caso acaba ocupado o eixo central da narrativa. ``A dramaturgia é excepcional. O Mayorga apresenta um fato, mas não faz dele a razão da encenação. O suposto caso de pedofilia - falo suposto porque a peça não chega a nenhuma conclusão -, é apenas o estopim para o surgimento desse personagem: o juiz. Ele é que tensiona todo esse debate sobre os valores da sociedade contemporânea. Ele, ao mesmo tempo em que se dedica de forma apaixonada à apuração das denúncias, tem grandes limitações morais``, afirma Brichta, feliz com o desafio de assumir o papel num momento de reencontro com o teatro. Para o ator, a grande força de Hamelin está na qualidade de sua argumentação. ``É muito mais fácil a gente apontar culpados do que entender a nossa parcela de culpa, de responsabilidade, diante dos fatos. Hamelin é uma provocação nessa direção``, conclui.

Como os pais da miúda Hamelin alemã, envolvidos diretamente no desfecho que foi dado a seus filhos, na medida em que se negaram a pagar o que havia cobrado o flautista, Vladimir acredita que a omissão de grande parte dos responsáveis é, também, um fator decisivo para a escalada cada vez mais recorrente dos casos atuais de pedofilia. ``Quantos pais não são pegos de surpresa em situações delicadas, julgando que estão garantindo tudo de melhor aos seus filhos? O próprio juiz da peça tem um filho e isso é muito curioso. O empenho total dele ao trabalho, numa postura quase obcecada, o faz abandonar essa criança, praticamente. Ou seja, a responsabilidade social, o compromisso moral, não faz dele um pai melhor. Quem garante que o próprio filho do juiz não possa ser uma vítima, já que é tão neglicenciado pelo pai?``, questiona o ator. Essas e outras questões, antecipa Brichta, despontam no decorrer da encenação. Segundo ele, o perfil traçado para o juiz que interpreta é desafiador. ``É um tipo muito complexo. Embora a peça não faça nenhuma afirmação, há quem cogite o fato de ele mesmo ter sido abusado sexualmente quando criança ou ser um pedófilo obstinado em incriminar alguém como forma de se livrar de suas próprias culpas``, diz.

Pela complexidade de seu eixo central, é evidente em Hamelin uma perspectiva de investigação teatral mais voltada para a pesquisa de linguagem. Toda a montagem abre mão de recursos cênicos para apostar na força das interpretações e no poder da palavra. ``A dramaturgia é o grande motor desse trabalho``, justifica Vladimir Brichta. ``O texto do Mayorga é tão forte, tão cheio de contradições, tão expressivo, que acaba ele mesmo assumindo uma outra dimensão. O cenário, o figurino, a iluminação, tudo está concentrado na palavra``, observa o ator. Sobretudo um exercício de escrita épica, Hamelin é narrado diante dos espectadores, exigindo destes uma capacidade dilatada de fabulação e, dos intérpretes, um empenho de composição ainda maior. ``O ponto alto dessa experiência é a cena do julgamento. O depoimento da criança está na peça e não temos uma criança para o papel. Isso é uma provocação do próprio texto. O Mayorga, assim, põe todos nós, adultos, naquele lugar, naquela dor, de uma criança supostamente violentada e coagida pela pressão de ter que condenar alguém``, considera.

Muito comentada em suas temporadas iniciais, Hamelin é uma das boas surpresas da safra teatral de 2009. De montagem modesta, a produção tem conquistado grande repercussão. Para Vladimir Brichta, uma surpresa. ``A gente torce muito quando se envolve num projeto que confia. Eu fiquei tomado quando li o texto do Mayorga. Desde o primeiro momento, tinha a certeza de que o modo como ele organiza essa discussão era extremamente importante de ser levado aos palcos. Mas a verdade é que a gente nunca sabe como o público vai reagir. Felizmente, tivemos um bom retorno``, comenta. ``Teatro é sempre um grande desafio, não apenas pelas dificuldades de produção, mas pela dificuldade do encontro. O teatro só se realiza com o público, sem ele nada é possível. Por isso, teatro é uma experiência que sempre alimenta, tanto quem faz quanto quem assiste. Para mim, o papel principal do teatro é fazer a gente pensar e experimentar algumas questões que não estariam no nosso dia-a-dia, mas que nos são essenciais``, afirma.

E-MAIS
> Um dos mais destacados nomes da dramaturgia contemporânea, o espanhol Juan Mayorga, 44, é titular da Real Escuela Superior de Arte Dramático de Madrid. Desde 1994, compõe o coletivo El Astillero, grupo experimental formado pelos autores José Ramón Fernández, Luis Miguel González Cruz e Raúl Hernández. Hamelin foi escrita em 2004 e tem agora sua primeira encenação no Brasil.
> Formado em Direção Teatral pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), o carioca André Paes Leme tem longa interface criativa com o chamado teatro épico. Em Hamelin, essa perspectiva é assumida num leque de novas possibilidades não só com o elenco cruzando diversos personagens como também pelo recurso a uma espécie de narrador da trama.
> Além de Vladimir Brichta, o elenco é formado por Alexandre Mello, Oscar Saraiva, Cláudia Ventura, Patrícia Simões e Alexandre Dantas.
> O trabalho mais recente de Vladimir Brichta no teatro havia sido o musical Os Produtores (2007), megaprodução da Broadway assinada no Brasil por Miguel Falabella, orçada em nada menos que R$ 7 milhões.

SERVIÇO
HAMELIN - Espetáculo com direção de André Paes Leme e texto de Juan Mayorga. Em cartaz no Teatro Celina Queiroz - Unifor (av. Washington Soares, 1321 - Edson Queiroz). Hoje e amanhã às 21 horas e, no domingo, às 19 horas. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Outras informações: 3477 3311.

• Magela Lima | O Povo | 2009-12-04


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