
Rasga Coração chega hoje a Fortaleza. Em cartaz no Sesc Senac Iracema, ela trata dos conflitos ideológicos entre pai e filho, trazendo como pano de fundo as transformações políticas de boa parte do século XX
Encenada originalmente no fim dos anos 1970, Rasga Coração é um dos clássicos da dramaturgia brasileira (Divulgação)
O ano é 1972. Manguary Pistolão, um homem de meia idade, funcionário público por profissão e comunista militante, leva uma vida ``na ponta do lápis``, irremediavelmente com mais contas a pagar do que dinheiro a receber. Para piorar, seu filho revela, pouco a pouco, que vai se tornar um hippie, algo inaceitável para o inveterado esquerdista, que, por sua vez, também confrontou seu pai por causa de ideais políticos, chegando até a ser expulso de casa. O conflito de gerações (e de ideias) que se estabelece, a partir daí, é o eixo central da narrativa de Rasga Coração, peça dirigida por Dudu Sandroni e escrita por Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, que, depois de arrebatar crítica no Rio de Janeiro, onde é encenada desde 2007, estreia hoje no Sesc Senac Iracema.
Antes da adaptação de Dudu, Rasga Coração só havia tido uma montagem profissional, há cerca de 30 anos, com atores como Raul Cortez e Ary Fontoura, numa época em que ainda reinava a repressão e o cerceamento ao direito de livre discurso. E não foi fácil fazê-la. Imediatamente após saberem da morte de Vianinha, em 1974, os amigos do dramaturgo se esforçaram para montar a peça. Ela foi, no entanto, censurada pelo regime ditatorial, mesmo tendo recebido, um pouco antes, um prêmio do Serviço Nacional de Teatro. Quando foi liberada, o lançamento causou grande comoção. O sentimento, segundo Dudu, que teve a oportunidade de assistir àquela versão, derivava de três fatores: da excelência da obra em si, de ela ter se tornado um marco na luta pela volta da democracia e de ser uma oportunidade de lembrar Vianinha no seu auge.
Em sua obra, aquele que é apontado pelos críticos como um dos grandes dramaturgos brasileiros do século XX abordou o homem de esquerda como poucos. Apesar de tratar da evolução das ideias de liberdade num Brasil instável, que briga entre o revolucionário e o autoritário, em Rasga Coração, seu último escrito, assim como em outros textos, ele amplia a visão do herói militante que se tinha à época. Aponta ``fraquezas`` quando tudo era para ser indefectível e, como sempre acontece com quem destoa de um consenso, acaba sendo criticado pelos próprios companheiros. ``Naquele tempo, as pessoas estavam muito preocupadas com anistia, abertura e não davam tanta atenção para outras questões. Hoje, temos liberdade de observá-los como seres humanos. Mas o impressionante é que Vianinha já fazia isso``, explica Dudu.
De fato, Manguary Pistolão é um dos símbolos dessa reflexão. Através da sua visão, o espectador acompanha o desenvolvimento do conturbado cenário político nacional desde a Revolução de 30 até o início da década de 1970, época em que se passam as cenas. A firmeza de sua atuação em busca de mudanças para o povo o relegou a uma existência medíocre, vivendo de pequenas lutas trabalhistas. Mas ele a toca com orgulho e se desespera quando vê o filho indo por outro caminho. O conflito ideológico é, inclusive, um recurso constante de que se utiliza o autor. Ao contrário de Manguary, outros personagens de Vianinha negaram os valores defendidos na juventude. Dessa forma, agem os protagonistas de Mão na Luva e Moço em Estado de Sítio.
Se hoje a completa transformação de indivíduos que uma vez foram militantes depois que ascendem socialmente é um tema recorrente nas mesas de discussões, quando da elaboração das duas peças, era quase um tabu. Não por acaso, elas só foram montadas por volta de 1985. Essa contradição já denunciada pelo dramaturgo gerou, segundo Dudu, frutos para a sociedade atual. ``Hoje em dia, é a geração de Manguary e de Vianinha que comanda o País. Sejam os dos partidos de direita ou os de esquerda, todos eram estudantes que lutaram juntos contra a ditadura``, afirma.
Para sua versão de Rasga Coração, o cenário escolhido é o apartamento do protagonista, assinado por de Lídia Kosovski. É a ambientação única, onde ocorrem as ações do presente e da memória resgatada. Por opção do diretor, as transições entre passado e presente se dão basicamente através do trabalho dos atores e da luz, de Djalma Amaral. A montagem tem como protagonista o ator paulista Zécarlos Machado e conta com mais sete atores do cenário teatral carioca, incluindo a premiada Kelzy Ecard.
EMAIS
- O texto de Rasga Coração foi ditado por Vianinha a sua mãe, no leito de morte. A primeira montagem foi assinada por Zé Renato, seu grande amigo.
- Com o filho hippie de Manguary Pistolão, o dramaturgo introduziu o tema ecologia na sociedade brasileira. Como fala Dudu Sandroni, quase não se falava de questões ambientais àquela época. Essa preocupação, segundo ele, só surgiu realmente com a volta dos exilados, em especial de nomes como Fernando Gabeira.
- Num trecho do texto, Manguary conversa com um amigo do filho, a fim de tentar compreendê-lo, e ouve dele as seguintes palavras: "Vocês tinham que ter dado mais espaço para a dúvida". A passagem, uma clara crítica às contradições da esquerda, foi alvo do descontentamento de vários colegas.
SERVIÇO
RASGA CORAÇÃO - De hoje a domingo, às 20 horas, no Sesc Senac Iracema (Rua Boris, 90-C - Praia de Iracema). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia para estudantes, idosos, professores, portadores do cartão BR e classe artística). Outras informações: 3252 2215.
• Thiago Barros | O Povo | 2009-12-11
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