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La escena iberoamericana

Brasil. Loas a R.G

Quem é Ricardo Guilherme? No ano em que o teatrólogo completa quatro décadas de atividade, artistas locais tentam definir esse que é considerado um dos mais importantes nomes do teatro cearense.
Último solo estreado por Ricardo Guilherme, Ramadança explora a tradição do maracatu cearense (Divulgação)
Naquele março de 1970, ele era um meninote. Nem contava 15 anos e estava prestes a dar um passo sem volta. Atrás da coxia do Teatro São José, aguardava a deixa para pisar num espaço que tomaria dali em diante como seu. O espetáculo era O Mártir de Gólgota e a estreia calhava ao lado da grande dama do teatro cearense, Antonieta Noronha. Inquieto, ele não se deixou assustar. Ricardo Guilherme já dava pistas de que seria grande, ali, nas duas ou três frases suas como o apóstolo Tiago. E ainda inventou de ser o locutor da radiadora, anunciando o início da peça Praia de Iracema adentro. Não parou mais.

“Um trabalho que é genial, fica. Por mais que a estética seja um pouco diferente, não há como não tomá-lo por referência. Ele é mestre, é bússola”, endossa o diretor do Grupo Bagaceira de Teatro, Yuri Yamamoto. No ano em que completa 40 anos de uma carreira corpulenta, com mais de 100 espetáculos, Ricardo Guilherme ganha comemorações já em janeiro, que persistem por todo o 2010. As histórias não caberiam num março só. No palco, Ricardo Guilherme é majestade.

“No começo, era um mito. Um dia, ele me convidou para fazer o figurino do espetáculo A divina comédia de Dante e Moacir, isso virou uma honra. Hoje, ele é o amigo, genial até nas horas de descontração”, define Yuri Yamamoto, apelidado carinhosamente por Ricardo de Gueixa Ciclotímica. A mesma admiração chega com força aos iniciantes das artes dramáticas. Aluna de Licenciatura em Teatro do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Yasmin Elica diz que Ricardo consegue, em cena, concentrar toda a atenção. “Ele tem presença de corpo e de voz. Ainda é ídolo e sempre será meta”, diz a estudante.

A contribuição de Ricardo Guilherme foi de, como autodidata, sistematizar boa parte da produção e da história do teatro cearense, segundo aponta a atriz e dramaturga Suzy Élida, com quem Ricardo foi casado. Companheira do dramaturgo no Grupo Pesquisa, fundado em 1978 - e cujas pesquisas e espetáculos reverberam até hoje – Suzy atribui toda a sua produção à contribuição, ao exercício e à aprendizagem que teve com o teatrólogo. “Ele é meu mestre e mestre da geração de agora também. É um dos melhores atores do Brasil, junto com a Denise Stoklos, mesmo sem o trabalho de mímica corporal que ela tem. Ela é a sofisticação de cristal. Ele é barro, matéria bruta”.

Ricardo Guilherme é personagem que, talvez, o próprio encenador Ricardo Guilherme não dê conta. Deixou sem conclusão duas graduações, em Letras e em Jornalismo, e abandonou um mestrado faltando apenas a defesa de uma dissertação pronta. A vida o puxava, carregava, tomava-lhe os domínios. Conquistou, no entanto, o direito de ser mestre das gerações do teatro com três títulos de notório saber (UFC, UFPB, UNB). “Quando eu o conheci, era já era ‘o’ Ricardo Guilherme. Ocupava uma posição de destaque. Era um mito, uma admiração”, diz o professor do Curso de Arte Dramática da UFC, João Andrade Joca.

A generosidade de Ricardo o mantém na posição de mestre. É alguém que dá um norte, sugere leituras, critica trabalhos construtivamente. Fez dos estudantes companheiros de cena. O ator Cícero Teixeira, ex-aluno e amigo do teatrólogo, diz que vê-lo em cena pela primeira vez foi impactante. “Assisti Flor de Obsessão e fui tomado. Involuntariamente, no meio da cena, eu estava de pé, aplaudindo, não me contive”, recorda.

Com o amigo e ex-aluno Karlo Kardozo, diretor do grupo Pã de Teatro, Ricardo dividiu sonhos e o projeto de levar a radicalidade do teatro aos quatro cantos. Um teatro de raiz, cujo ator fosse o cerne, o fim e a razão da encenação, também no Grupo Imagem de Teatro. “Com o meu mestre querido, aprendi sobre a vida. Ele é perene, firme como o sol. Aprendi com ele a trocar cartas. Na era do e-mail, escrevemos a mão até hoje”, agradece.

EMAIS
- Ator, dramaturgo e diretor teatral, com uma teatrografia de mais de 100 espetáculos realizados, em 40 anos de atividade, numa trajetória nacional e internacional, em que figuram temporadas em países da Europa, África e das Américas. Historiador, com livros sobre a história do teatro cearense, premiado pelo Ministério da Cultura, nos anos 1970, por seu trabalho de pesquisador. Contista, cronista, poeta, com obra publicada pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, Fundação Cultural de Fortaleza e Fundação Demócrito Rocha.

- As comemorações também incluem a montagem de A Lição, de Eugène Ionesco. Ricardo Guilherme pretende fazer a estreia no dia em que comemora os 40 anos de palco, em 22 de março. Depois de anos encenando monólogos, Ricardo deverá contracenar com a atriz Maria Vitória e com um ator convidado a cada apresentação.

- Entre os espetáculos mais importante de Ricardo Guilherme estão Valsa Nº 6 (1990); Sargento Getúlio (1991), experiência inicial como ator na poética do Teatro Radical; Flor de Obsessão (1993), por sua polifonia, seu caráter épico e despojado; A Cantora Careca (1994), primeiro coletivo do Radical; 68.com .br (1998), por ter sido a primeira peça a reunir em cena todos os atores da Associação de Teatro Radicais Livres, e A Divina Comédia de Dante e Moacir (2000), por reafirmar a dramaturgia com os arquétipos da cearensidade.

SERVIÇO
RICARDO GUILHERME - comemoração dos 40 anos de atividades artísticas com diferentes espetáculos solos em todas as terças do mês, iniciando amanhã, com Bravíssimo. Nas demais terças, sessões de Flor de Obsessão (12/1), Ramadança (19/1) e Apareceu a Margarida (26/1). No Theatro José de Alencar, às 19 horas. Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Outras informações 3101 2583.

• Angélica Feitosa | O Povo | 2010-01-04


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