
Encerrando sua passagem pelo Ceará, o projeto Teatro do Oprimido de ponto a ponto, criação do referencial Augusto Boal, esteve neste domingo no TJA, discutindo a violência contra a mulher.
A cena é a seguinte: o marido chega em casa, trazendo flores para sua esposa e esta lhe agradece e anuncia sua mais nova decisão, vai começar a trabalhar. Ele começa, calmamente, a mostrar para ela que isso é uma bobagem e que ela deveria ficar em casa cuidando das obrigações do lar. Ela devolve explicando que essa é uma forma de contribuir mais nas necessidades pessoais e familiares e que ficou certa deste novo caminho após ver na TV a propaganda de um novo batom feito para a mulher ``moderna, contemporânea e que trabalha fora``. Diante da relutância do marido, ela se vê entre satisfazer a vontade própria ou dele. Então, ela deve ou não usar este novo batom?
A dúvida foi lançada no último domingo (17), às 15h, na sala Nadir Sabóia do Theatro José de Alencar, durante a apresentação do Laboratório Madalena. Baseado no método teatral elaborado por Augusto Boal chamado de Teatro do Oprimido, o espetáculo abordou uma série de questões em torno das diferenças, violências e possibilidades de mudança que envolvem as questões de gênero. Começa com os atores apresentando uma cena que se encerra numa dúvida. Em seguida, um mediador convida o público a discutir o que viram e a vir ao palco para demonstrar um novo caminho para a história. Instigados e, até certo ponto, revoltados com as situações apresentadas, o público interage criando novas formas de resolver problemas que envolvem muitas mulheres em todo o mundo. Importante, todas as cenas apresentadas pelo Laboratório, que já passou por Juazeiro e Crato, são baseados em fatos reais.
"É uma experiência boa que tira a ideia de que o teatro é só o riso e drama para você assistir. Aqui nós vemos a realidade dos fatos. É uma forma de orientar e de fazer com que a sociedade participasse mais``, analisa a advogada Francimar Cesar que fez questão de entrar na história para dar sua possível solução para a personagem. Cada uma das possibilidades é discutida e repensada para que sejam encontrados novos pontos de discussão.
Uma nova cena é apresentada, dessa vez sobre uma adolescente abusada pelo pai e que não encontra apoio da mãe, que prefere se omitir, e tem como única ajuda a madrinha. Diante de problemas como a morosidade da justiça, preconceitos, medo dos comentários da vizinhança e do próprio pai, qual seria o melhor caminho a seguir? "É uma forma de fazer o povo ver que tem seus direitos e de ter contato com a realidade de outras pessoas", comemora o técnico de enfermagem Luciano Chaves. "O Teatro do Oprimido é só uma semente. É um ensaio para a vida", acrescenta a atriz Rebeka Lúcio, que interpreta a esposa. "Quem vai decidir se vai mudar e o que vai mudar é o espectador".
Além dos espetáculos e discussões passaram pelo Ceará, e que agora seguem para o Rio de Janeiro, Guiné-Bissau e Moçambique, o Laboratório Madalena vem desenvolvendo painéis de discussão e trabalhos com artes plásticas, sempre abordando as violências contra a mulher. Vencedor do Prêmio Interações Estéticas & Residências Artísticas em Pontos de Cultura e realização do Centro de Teatro do Oprimido em parceria com a diretora teatral italiana Alessandra Vannucci, a apresentação consegue fazer a plateia se expressar, seja em risos, opiniões, encenações ou, mesmo, prestando atenção ao palco.
Na avaliação de Alessandra, a resposta do público foi totalmente positiva, seja na Capital ou no Interior, com direito também à participação de homens que resolveram mostrar seu lado na história. "Saímos pela feira do Crato chamando as pessoas para assistirem o espetáculo que aconteceria no teatro do Sesc. Diante de uma das situações que mostramos, um homem resolveu dar sua opinião e disse que era -meio machista-. Ele, então, subiu ao palco para mostrar o que um -meio machista". Outros já diziam que aqui isso se resolve na peixeira". Procurando sempre trazer para a discussão a ideia de uma mudança estratégica, não buscando um conflito, mas a solução para problemas históricos e culturais, ela vê na experiência do Laboratório Madalena uma chance para as mulheres repensarem determinados valores. "Quando as mulheres se juntam, acabam ganhando força".
EMAIS
- O Laboratório Madalena faz parte do projeto Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto, que também desenvolve trabalhos sobre saúde mental e prevenção à criminalidade e violência.
- O encerramento das atividades do Laboratório Madalena está programado para o dia 28 de maio, no Largo da Lapa (RJ). O evento gratuito vai contar com lona de discussão sobre a situação da mulher na sociedade atual, exposição de produções artísticas, show musical e apresentação das cenas produzidas nos laboratórios.
- O nome do projeto faz menção à Maria Madalena, uma das discípulas de Jesus Cristo. Bárbara Santos, coordenadora do Teatro do Oprimido de Ponto a Ponto, justifica dizendo que "Madalena entrou para o imaginário da sociedade cristã juntando a mulher perseguida com a santificada".
• Marcos Sampaio | O Povo | 2010-01-19
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