
Aos 77 anos, o ator, diretor e dramaturgo cearense José Maria Bezerra de Paiva coleciona feitos e causos. Um deles o trouxe de volta ao ninho em sua primeira arribada
Os dicionários são, quase sempre, traiçoeiros. Quase. Algumas vezes, são precisos e preciosos. Em História do Teatro Cearense, Marcelo Costa, no verbete dedicado ao veterano José Maria Bezerra de Paiva, ou simplesmente B., como é mais conhecido, afirma: ``Se tivéssemos que dividir a História do teatro cearense, ela seria antes e depois de B. de Paiva``. Entre idas e vidas, o ator, diretor e dramaturgo tem seu nome envolvido nos principais movimentos de renovação da cena local. Ao lado de Haroldo Serra, Hugo Bianchi e Marcos Miranda, funda o Teatro Experimental de Arte (TEA), berço da futura Comédia Cearense.
É dele a direção de montagens como O Morro do Ouro (1963) e Rosa do Lagamar (1964), da obra de Eduardo Campos, responsáveis por reposicionar a produção local no panorama nacional. Como Rosa, por exemplo, a cearense Hiramisa Serra roubou cena, sendo indicada a melhor atriz no tradicional Prêmio Mambembe. Aos 27 anos, B. de Paiva assume a direção do estreante Curso de Arte Dramática (CAD), da Universidade Federal do Ceará, iniciando uma trajetória pedagógica que o levaria, anos mais tarde, à Escola de Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), instituição pioneira no ensino superior de artes cênicas do Brasil.
No CAD, B. de Paiva aguçou talentos e dividiu saberes. Na entrevista a seguir - por telefone, de Brasília, onde vive atualmente -, ele retoma o processo de instalação do curso, fala da experiência do tempo em que morou nos camarins do Teatro Duse (no Rio de Janeiro) e homenageia seus grandes mestres: o cearense Waldemar Garcia e o carioca Paschoal Carlos Magno. Com uma memória extraordinária, o veterano emociona-se ao lembrar amigos queridos, além de lamentar profundamente a demora do processo que converteu o CAD num curso superior. ``O CAD é importante porque fez nascer uma geração nova, trouxe um entendimento para o teatro que rompia com o amadorismo dos grupos populares de antes, colocando em cena artistas sem os quais o teatro cearense definitivamente não seria o mesmo``, conclui. (Magela Lima)
O POVO - Como o senhor recebe a notícia de que, enfim, a Universidade Federal do Ceará passa a oferecer um curso superior de artes cênicas? Retomando o início desse processo, há exatos 50 anos, em que consistia o convite do professor Antônio Martins Filho para que o senhor ingressasse na instituição?
B. de Paiva - Já não era sem tempo! (risos) O professor Martins Filho foi ao Rio de Janeiro em 1958, 1959, e procurou o Serviço Nacional de Teatro (SNT) com a intenção de criar um curso regular de teatro na recente Universidade Federal do Ceará. O Martins Filho era um homem extremamente preocupado com as artes. Você sabia que a Concha Acústica da UFC é a primeira das universidades do Brasil? Ele era um homem avançadíssimo e muito culto. Naquela viagem ao Rio, ele queria alguém que pudesse assumir aquele novo curso. Chegando lá, a indicação dada foi eu, um cearense. Ele me convidou e eu, e minha mulher naquele período, a bailarina Tereza Bittencourt, abrimos esse curso. Nós e artista plástico e cenógrafo maranhense J. Figueredo, pai da Gracinha (Soares), que depois viria também a ser professora do CAD. Fiquei no Ceará até 1968. Infelizmente, não progredimos na Universidade. Ali, todos os cursos de teatro não eram reconhecidos pelas universidades. Mesmo o da Dulcina (de Moraes) e da Bahia. Anos depois, eu consegui fazer, já no Rio, o que eu não consegui fazer no Ceará: fundei o primeiro curso de nível superior de artes cênicas. Isso de 1969 para 1970.
OP - Apesar de as aulas começarem em 1960 e também nesse ano acontecer a primeira montagem, o Curso de Arte Dramática só é oficializado pela UFC um ano mais tarde. Enquanto a burocracia insistia em atrapalhar, de que forma Fortaleza e panorama cultural daquele momento acompanharam o surgimento do CAD?
Paiva - Olhe, as dificuldades que o CAD passou no começo não eram nenhuma exclusividade. É comum que a estrutura vá sendo trabalhada ao longo do processo de implantação de um curso. Isso na UFC ou em qualquer outra instituição. Veja, até a Dulcina, que teve todo apoio do presidente Juscelino Kubitschek, não conseguiu oficializar o curso dela. Isso só acontece depois do processo que eu comecei na UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). O Juscelino foi um homem muito comprometido com a cultura, com o teatro, dignificou a profissão, mas não fortaleceu a cultura no espaço da universidade brasileira. Sobre a receptividade do CAD, o que tenho a dizer é que foi excelente. E não podia ser diferente. Minha primeira preocupação, quando fundei o curso, foi garantir que aquele que tinha sido meu mestre pudesse passar o que sabia a outras pessoas. Você não imagina o quanto era precioso para a gente uma figura como o Waldemar Garcia! Ele sabia de tudo e a gente tinha muito a aprender. O Waldemar foi meu grande mestre...
OP - Ele e o Paschoal Carlos Magno. É possível creditar a origem do Curso de Arte Dramática ao seu encontro com o Paschoal? Como aquele movimento do Teatro do Estudante do Brasil (TEB) influenciou sua geração?
Paiva - Tudo o que eu sou na vida eu devo ao Paschoal. Eu comecei minha carreira como homem de educação teatral com ele. Ele foi o homem mais importante do teatro brasileiro, foi responsável pela projeção do teatro moderno no Brasil. Infelizmente, é reconhecido em todo o mundo e silenciado no Brasil. Ele transformou amadores em estrelas do teatro nacional: Cacilda Becker, Sérgio Cardoso... E mais: foi decisivo para que o Brasil conhecesse a teoria e a prática teatral do Stanislavski, com aulas que a Nina Ranewsky (atriz russa) ministrava. Ele foi um homem à frente do tempo, criou os primeiros festivais de estudante do País, revelando nomes como Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho. O Teatro do Estudante do Brasil modernizou o teatro brasileiro. Antes, era tudo como era sempre, um teatro antigo. Eu, por exemplo, fui ponto do Theatro josé de Alencar. O TEB me deu toda uma nova visão das formas de representar, fortalecendo o trabalho do ator.
OP - Em 1954, por questões de saúde, o senhor deixa o Ceará e segue para o Rio de Janeiro. Lá, se aproxima ainda mais do Paschoal num momento extremamente importante para o teatro brasileiro, que foi o período de atuação do Teatrinho Duse, onde o senhor, inclusive, chegou a morar. É aí que surge o seu compromisso mais explícito com a formação teatral?
Paiva - Antes de sair de Fortaleza, eu e a minha geração já estávamos contaminados pelo pensamento do Paschoal. Toda a nossa atividade já tinha um pouco essa linha mais voltada para o aprendizado, para a formação. E isso a gente deve não Paschoal diretamente, e à dona Nadir Saboya, que é a pessoa mais importante do teatro do Ceará. Ela era muito preocupada com a formação dos atores, tanto que o grupo que criou chamava Teatro Escola. Ela, a dona Nadir, é quem traz o Teatro do Estudante para o contexto cearense, quem localiza o pensamento do Paschoal no panorama local. No Duse, eu apenas tive uma formação mais qualificada. Toda a minha bagagem cultural vem dali. Ali, estavam grandes atores trabalhando, todos extremamente empenhados. Foi ali que se formou o primeiro grupo de teatro infantil permanente, a mesma coisa no teatro de rua. No Rio de Janeiro, eu fui estimulado a pensar sobre teatro e não apenas a fazer teatro.
OP - Na sua volta para o Ceará, além do CAD, o senhor assume a linha de frente da Comédia Cearense. Havia uma espécie de diálogo entre essas duas atividades?
Paiva - O trabalho da Comédia Cearense se desenvolve a partir do esforço do Haroldo Serra. Eu apenas tive a alegria de me associar àquele projeto durante um tempo. O Haroldo é a verdadeira memória do teatro cearense, mantém vivo o grupo de teatro mais antigo do Brasil. Você sabia? Olhe, naquele tempo, todos nós, todos os grupos, compartilhávamos um mesmo sentimento. A gente entendia e defendia que não poderia haver progresso sem teatro. Claro, havia diálogo, mas havia, sim, diferenças. A Comédia era um grupo amadorístico e nós começamos a desenvolver uma experiência mais profissional, aproveitando as condições abertas pela Universidade. A diferença principal é que o CAD estava orientado por uma preocupação pedagógica e a Comédia estava interessada em fortalecer um mercado local de teatro. Não havia disputa, havia soma em nome do teatro. Foi um período de unidade, não de rivalidade.
OP - Apesar da repercussão positiva dos primeiros espetáculos, o CAD tinha uma irregularidade muito grande nas primeiras turmas, formadas em sua maioria por artistas que já tinham alguma história no teatro. Nos anos 1970, uma geração, de fato, estreante se apossa do curso e promove uma renovação importante para cena local. Como o senhor acompanhou esse processo?
Paiva - Eu acompanhei tudo com muita atenção. O CAD dos anos 1970 é o CAD do Edílson Soares e da Gracinha. Agora, a verdade é que o CAD sofreu muito com a chegada da ditadura. Nessa época, tudo ficou muito diferente, embora algumas pessoas defendam que não, pelo fato de o Castelo Branco ter colocado a Bárbara Heliodora no SNT. Eu saí de Fortaleza em 1968, mas minha ex-mulher e meus filhos ficaram até 1971, 1972... Por isso, sempre voltava. Minha história com Fortaleza e o teatro cearense é sólida, é uma relação que nunca se quebrou. Eu fui embora, mas tudo ficou como era antes. Mais que teatro, eu fiz amigos. Quando a Gracinha morreu, por exemplo, aquilo foi uma dor absurda (emociona-se).
OP - Nesses 50 anos de história do CAD, que contribuição o senhor pontuaria como decisiva para o teatro cearense? Além disso, que razão o senhor acredita ter sido determinante para o curso se mantivesse por tanto tempo como um simples curso de extensão?
Paiva - O CAD nasceu dentro de uma preocupação do professor Martins Filho com a cultura e a identidade do Ceará, da mesma forma que outros equipamentos da Universidade Federal. Infelizmente, os demais reitores que o seguiram cronologicamente não o seguiram intelectualmente, nem politicamente. O CAD é importante porque fez nascer uma geração nova, trouxe um entendimento para o teatro que rompia com o amadorismo dos grupos populares de antes, colocando em cena artistas sem os quais o teatro cearense definitivamente não seria o mesmo. Um artista como o Marcelo Costa, por exemplo, responsável pelo primeiro resgate da história do nosso teatro, começa no CAD. Para mim, isso já explicita a razão de ser do CAD. O que me dói muito é que a Universidade não atentou a tempo para a importância de uma graduação. Essas coisas acontecem.. Acredito que a Universidade não teve condições financeiras para efetivar o projeto graduação, que, se não era uma realidade em 1960, foi apresentado por mim mesmo várias vezes quando isso passou a ser uma realidade para outras instituições brasileiras.
OP - Além das fragilidades promovidas pela própria universidade, com a estrutura precária, a falta de professores efetivos e outras questões, o CAD sofre um baque muito forte recentemente, com a criação do Colégio de Direção Teatral, do Dragão do Mar. Tendo também dirigido o Colégio, o senhor identificaria afinidades entre as iniciativas?
Paiva - O CAD e o Colégio são irmãos. Foi através do Colégio, por exemplo, que consegui recursos para uma das reformas recentes do CAD. O Dragão do Mar, enquanto projeto político, representa um movimento de modernização da cultura do Ceará, embora tenha acabado com boa parte da nossa memória e eu não acredite em modernização sem memória. Entendo perfeitamente porque o Dragão esvaziou o CAD. O Dragão tinha recursos que o CAD não dispunha para realizar montagens e contratar professores. O Dragão sempre teve dinheiro e políticos interessados, coisa que o CAD nunca teve.
OP - Hoje, além do CAD, agora com status de graduação, o Ceará conta com uma ampla, embora recente, rede de cursos de artes cênicas. Aqui em Fortaleza, tem o do Ifete (antigo Cefet) e o da Unifor e, em Barbalha, o da Urca. Sendo responsável pela criação de importantes centros de estudo Brasil afora, como a UniRio, como o senhor avalia a relação da criação teatral com a academia, com as salas de aula?
Paiva - O teatro se renova quando vai para a sala de aula. Os desafios são muitos para o teatro e a universidade tem todas as condições de atuar, de contribuir, para o enfrentamento positivo desses desafios. A universidade pode transcender o sentido do teatro como mero lazer. Penso que a universidade pode, por exemplo, contribuir para o desenvolvimento de uma nova dramaturgia, para a emergência de uma nova cenografia... O grande papel da universidade é permitir que esse teatro novo aconteça. A universidade tem que contribuir para a renovação, que infelizmente o mercado não dá conta. Se o mercado manda encenar musicais da Broadway, a universidade tem que intervir. É nisso que acredito e foi por isso que trabalhei uma vida toda.
• O Povo | 2010-01-24
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