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La escena iberoamericana

Brasil. Dias melhores virão

Em meio às comemorações de 50 anos do CAD, a Universidade Federal do Ceará cria uma habilitação superior para o ensino das Artes Cênicas. Com 40 vagas, a primeira turma tem início agora no primeiro semestre.
Tempo de espera. Assim, parece viver o teatro cearense. Com o presente eternamente adiado, os desejos aqui sempre se voltam para um futuro que teima em não chegar. A promessa do Theatro José de Alencar, por exemplo, estendeu-se por 46 anos. A primeira determinação para que se construísse uma casa de espetáculos ali na chamada Praça do Patrocínio é de 1864. O TJA só viria a ser inaugurado em 1910. Personagem de um período bem mais recente, o Curso de Arte Dramática é recordista na arte da espera. Ficou exatos 50 anos aguardando uma definição, por parte da direção geral da Universidade Federal do Ceará, para que, enfim, se tornasse/convertesse em curso superior de formação de atores.

Responsável pela criação da instituição, B. de Paiva explica que, a princípio, não tinha como ser diferente. ``As dificuldades que o CAD passou no começo não eram nenhuma exclusividade. É comum que a estrutura vá sendo trabalhada ao longo do processo de implantação de um curso. Isso na UFC ou em qualquer outra instituição``, considera. Ainda de acordo com o professor, a universidade brasileira não estava preparada para lidar com o ensino de arte, quando assume esse compromisso. ``Mesmo a Escola de Teatro da Bahia, a primeira, de 1946, não nasce como curso superior. Essa conquista vem com o tempo. Infelizmente, no Ceará, não progredimos na universidade``, destaca.

Titular do CAD desde 1979, o ator e diretor Ricardo Guilherme identifica um agravante nesse percurso. ``Houve, sim, um descaso da universidade em relação ao CAD. Tanto que o B. de Paiva vai embora do Ceará em 1968, depois de um período extraordinário à frente do curso. O B. sentiu que aquilo não ia avançar e foi procurar novos desafios, tanto que cria o primeiro curso superior de teatro do Brasil e assume a reitoria da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro``, observa. Segundo Ricardo, vários projetos foram apresentados & e, sucessivas vezes, negados pela UFC e pelo Ministério da Educação & para que o CAD passasse a ter dimensão de faculdade. A prometida graduação, no entanto, era um sonho eternamente adiado.

Agora, porém, a promessa se configura como realidade. Dia 28 de fevereiro próximo, a UFC recebe a primeira leva de alunos do Curso de Artes Cênicas. ``Uma conquista``, defende Guilherme. Coordenador responsável pela implantação, o ator Ghil Brandão, formado pelo CAD na turma de 1992 e efetivado como professor quatro anos mais tarde, diz que o momento é de celebração. ``O nosso presente está entrelaçado ao passado, mas a realidade que se anuncia é outra. A UFC atende agora a uma reivindicação antiga do teatro cearense porque assume um novo compromisso com a cultura do Ceará, depois de a criação do instituto de Cultura e Arte``, sustenta.

Com quatro novos professores contratados & Rosa Primo (corpo), Tiago Fortes (interpretação), Juliana Rangel (voz) e Carolina Vieira (direção) -, Ghil ressalta que a graduação terá um víeis mais pedagógico, interessado em formar professores de teatro, sem perder a perspectiva de que ensina melhor quem domina melhor a atividade teatral. ``O curso será misto. Os estudantes vão sair UFC voltados para esse mercado do ensino do teatro, mas isso não significa dizer que não serão artistas qualificados. Teremos uma preocupação conjunta``, justifica.

Futuro do CAD
A exemplo do que acontece na Universidade de São Paulo (USP) & onde convivem a graduação da Escola de Comunicação e Artes (ECA) e o curso profissionalizante da Escola de Arte Dramática (EAD) -, a UFC passa a dispor de ações conjuntas no campo da formação teatral. O também professor Ricardo Guilherme destaca, porém, que o futuro do CAD está em aberto, precisa ser construído. ``As recentes aposentadorias e as contratações nos colocam diante de um momento de avaliação. O futuro do CAD será definido a partir do diálogo do novo corpo docente. A maior parte dos professores é novata na universidade e é ela que vai decidir os caminhos que o CAD deve seguir``, considera.

Uma questão, porém, é certa: mudanças são bem-vindas, mas a permanência das atividades do CAD é indiscutível. ``A graduação é um passo adiante que a universidade dá em relação ao teatro, o que não quer dizer a função do CAD tenha sido superada. Pelo contrário. Agora, que teremos uma instância para o pensamento, para a teoria, para a pesquisa, é que podemos fortalecer a prática``, defende Ghil Brandão. A expectativa, para ele, é de que o primeiro semestre seja o tempo suficiente para que a nova equipe de trabalho se familiarize e fundamente o projeto do novo CAD. ``Fortaleza não pode abrir mão de um espaço que tradicionalmente foi uma referência para quem deseja entrar no mundo do teatro. O CAD é tão fundamental quanto a graduação``, afirma. (Magela Lima)

E-Mais
> Além dos quatro professores recém-concursados, o corpo docente do CAD e formado por Ricardo Guilherme, Ghil Brandão, Valéria Albuquerque e Poty Fontenele.
> Enquanto não é construída a sede do Instituto de Cultura e Arte da UFC, no campus do Pici, o CAD e a graduação de Artes Cênicas funciona na avenida da Universidade.

• O Povo | 2010-01-24


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