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La escena iberoamericana

Brasil. É teatro ou é escola?

O curso de arte dramática da UFC chega aos 50 anos. O Vida & Arte Cultura retoma esse percurso e convida a pensar sobre a relação da criação artística com as salas de aula
Fosse um texto de Nelson, as duas ou três primeiras linhas seriam logo surpreendidas. ``Batata!``. Gritaria algum dos personagens diante de uma evidência absoluta. No Brasil, sempre que os palcos se converteram em salas de aula (ou vice versa), novos e férteis dias se anunciaram. Basta correr a vista no tempo: é assim, por exemplo, que José de Alencar e Machado de Assis se arriscam como dramaturgos no século XIX, graças ao Teatro Ginásio Dramático; e é assim, também, que Paschoal Carlos Magno e seu Teatro do Estudante do Brasil reinventam o moderno teatro brasileiro, fazendo emergir nomes como Sérgio Cardoso e Ariano Suassuna.

Aqui pelo Ceará, não fora diferente, o processo se repetiu. No fim dos anos 1940, o multifacetado Waldemar Garcia capitaneava um coletivo batizado de Teatro Universitário, aninhado na Faculdade de Direito da futura Universidade Federal do Ceará. Dali, despontariam figuras preciosas do panorama local: Geraldo Markan estreia como ator e Eduardo Campos tem seu primeiro flerte com a dramaturgia. Juntos & diretor, intérprete e autor -, eles fundaram a cena moderna no Ceará com a montagem de O Demônio e a Rosa, em 1950. O grupo, porém, não teve vida longa. Pouco tempo depois, boa parte do elenco, desfeito, enveredava por outros conjuntos.

Aliás, eles foram muitos ao longo daquela década. Em 1951, surge o Teatro Escola do Ceará, de dona Nadir Papi Saboya e dona Maristher Gentil. Na sequência, um ano mais tarde, era vez do Teatro Experimental de Arte (TEA). Já em 1957, nascia a ainda atuante Comédia Cearense, companhia de maior longevidade do Estado. Entre os veteranos, a fundação do Curso de Arte Dramática (CAD), em 1960, vinha coroar todos os esforços vividos ao longo dos anos 1950. ``O teatro é sempre muito sofrido, demanda muito esforço. Por isso, as conquistas são tão especiais. O CAD tinha, desde sempre, o sabor da vitória. Nós sonhamos muito com uma escola. O CAD, apesar de todas as dificuldades, era, sim, um sonho realizado``, lembra o veterano ator e diretor Haroldo Serra.

Sem nunca ter passado efetivamente pela instituição, Serra tem o CAD como um divisor de águas. ``Ali, abria-se a possibilidade para a emergência do ator técnico. Era o fim do teatro intuitivo``, resume. Companheiro de geração, o ator Ary Sherlock conhece bem essa realidade. ``Antes do Curso de Arte Dramática, todo o nosso teatro era amador. Amador no sentido de que era esporádico, irregular. Claro, era tudo mais romântico. A gente tinha a chave do Theatro José de Alencar, chamávamos de Chave do Céu, mas não tínhamos, na maior parte dos casos, conhecimento técnico suficiente, era tudo feito às cegas. O CAD trouxe rigor, método criativo, para os nossos palcos. Essa é uma conquista definitiva``, diz.

Serra vai além. Para ele, a maior contribuição do CAD está no fato de ser uma escola. Dali em diante, a formação de atores, cenógrafos, diretores, dramaturgos, iluminadores e outros tantos artistas cênicos saía do domínio da prática, do exercício criativo. ``Uma escola é importante não só porque ensina, mas, principalmente, porque estimula. A realidade trazida pelo Curso de Arte Dramática garantia mais que aperfeiçoamento ao teatro cearense, mas, sobretudo, longevidade, que sempre foi nosso problema crucial. Com o CAD, alguém que não tivesse contato algum com o teatro, mas tivesse desejo, poderia experimentar o teatro e, caso o talento se confirmasse, seguir adiante. Antes, isso era algo muito pouco provável``, considera.

Gente como a atriz Jane Azeredo. ``É engraçado falar do CAD porque foi ali que tudo começou. Os 50 anos do CAD também são meus, completo agora 50 anos de carreira``, emociona-se. Recém-chegada de Santana do Livramento (RS), Jane tateava ainda por Fortaleza quando surgiu o Curso de Arte Dramática. ``Eu não sabia nada de teatro. Nem sequer, sabia chegar sozinha ao José de Alencar. O CAD me revelou um mundo novo, me possibilitou o encontro com artistas extraordinários, me apresentou o teatro como ofício, e, não, como diversão``, lembra. Egressa da primeira turma, a atriz traduz o velho CAD como uma semente. ``Somos hoje o que foi plantado ali. O CAD nos permitiu vencer o teatro de imitação``, afirma.

E-Mais
>Passado o período de inscrição em janeiro, a turma inaugural do CAD começou o processo letivo em março de 1960. As aulas eram irregulares, funcionando como um curso livre, sem carga-horária fixa.
> A primeira montagem do CAD, reunindo artistas da cidade já com alguma tradição, foi o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Aquela seria a primeira encenação da peça no Ceará, numa programação especial, comemorativa aos 50 anos do Theatro José de Alencar.
> Formalmente, o CAD é oficializado pela Universidade Federal do Ceará em fevereiro de 1961, como atividade de extensão.
> O curso, inicialmente, funcionou no porão da antiga sede do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, na Praça do Liceu. Em seguida, transferiu-se para a rua Guilherme Rocha, no Centro. Finalmente, em 1965, muda-se para o prédio atual, na avenida da Universidade, quando da inauguração do Teatro Universitário, batizado posteriormente como Paschoal Carlos Magno.

• Magela Lima | O Povo | 2010-01-24


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