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La escena iberoamericana

Brasil. Turma do abraço

A princípio ocupado por artistas já com certa experiência, o curso de Arte Dramática não tardaria a assumir seu papel principal. Pouco a pouco, fez-se arena para principiantes, transformando-se na principal vitrine do teatro local.
Dia desses, numa conversa de camarim no Recife, Ceronha Pontes teve sua dicção elogiada. Encabulada, a atriz sorriu amarelo. Um amigo cearense que acompanhava aquela prosa, lhe retrucou ao pé do ouvido: ``Não era para menos, você foi aluna da Glória Martins``. O caso recente traz de volta os tempos em que ela trocava o amadorismo de sua miúda Tamboril pela oportunidade de se profissionalizar no ofício do teatro. ``Até o CAD, eu era totalmente desconectada do universo do teatro. Tinha um desejo imenso, mas aquilo se restringia quase a uma brincadeira de férias``, lembra.

Também vinda do Interior do Estado, a veterana Antonieta Noronha atesta a vocação do Curso de Arte Dramática. ``Quando eu cheguei de Sobral, eu queria ser cantora. Esse era o meu sonho. Mas, sempre que eu cantava, as pessoas diziam que eu tinha mais talento para atriz, que eu sabia dar sentimento às músicas. O problema é que eu não sabia nada de teatro. Foi o CAD que me deu acesso a esse mundo novo. O CAD mudou a minha vida. A minha e a de muitas outras pessoas que, como eu, também tiveram ali suas primeiras chances``, considera.

Colega de sala de Antonieta Noronha, na turma que conclui o Curso de Arte Dramática em 1966, o ator, diretor e dramaturgo Marcelo Costa resume bem o advento do CAD para aquele cenário de 50 anos atrás. ``Antes do CAD, Fortaleza era uma como uma cidade sem uma praça. Mais que as aulas & no começo, muito irregulares -, o CAD trouxe um convívio extremamente importante para os artistas da cidade. Principalmente, os iniciantes. O CAD era a nossa única porta de entrada, ou a gente fazia CAD ou não fazia teatro. Por isso, a gente vivia ali. Só isso já era absolutamente transformador``, afirma.

Nome singular da cena independente dos anos 1970, Marcelo Costa, ao lado de uma série de outros ex-alunos do CAD, é fundador da Cooperativa de Teatro e Artes, nascedouro do ainda resistente Grupo Balaio. Professor do Curso de Artes Cênicas do Instituto Federal de Educação Tecnológica (Ifete), ele posiciona historicamente a contribuição central do Curso de Arte Dramática. ``O CAD poderia ter sido muito mais, ter ido mais longe, caso a Universidade tivesse apostado nele. Apesar de tudo, ele é um marco e com saldo positivo. Não só contribui para diminuir o amadorismo da nossa cena, como nos permitiu fazer isso enxergando a nossa realidade. O CAD nos deu consciência, ao passo que o Dragão do Mar, mais recentemente, fomentou uma experiência de ilusão``, conclui.

Formada na turma de 1992, Ceronha Pontes coroa esse pensamento. ``A sensação que se tem, quando se depara com a universidade pública no Brasil, é quase sempre de desconforto. Para mim, aquelas dificuldades todas do dia-a-dia do CAD fazia parte do aprendizado teatral. As fragilidades nos obrigam a ser mais resistentes``, observa. Aos 73 anos, Antonieta Noronha também compreende assim o legado do Curso de Arte Dramática e festeja ter carregado esse compromisso por uma carreira viva e intensa desde os anos 1960.

``Ninguém nunca saía do CAD, achando que teatro é uma coisa fácil. E isso é um mérito. No meu tempo, a nossa casa era o CAD. Então, muitas vezes, a gente aprendia teatro das formas menos prováveis: limpando um palco, varrendo uma sala, pintando um cenário... A gente fazia de tudo``, comenta. Na única passagem da atriz Cacilda Becker por Fortaleza, por exemplo, foi a turma de Antonieta Noronha e Marcelo Costa, que assumiu toda a produção. ``O Theatro José de Alencar estava num momento complicado, praticamente abandonado. O B. de Paiva chamou a gente e disse: -Essa é a maior atriz do Brasil. Não desgrudem dela, nem deixei faltar nada. Vocês terão uma oportunidade rara de aprender a fazer teatro-. E assim a gente fez. Até meu cinto eu emprestei para o Walmor Chagas, que contracenava com a Cacilda, entrar em cena. Eram essas as nossas aulas mais expressivas no CAD``, descreve.

Egresso da primeira turma, o ator Emialino Queiroz diz que a magia do CAD estava em misturar a escola formal com a escola da vida. ``Até nisso, o B. de Paiva foi genial. O B. não foi o mais talentoso da nossa geração, mas foi o nosso Moisés. Ele abriu um Mar Vermelho de dificuldades extremas para o teatro cearense passar``, poetiza. Fora do Ceará desde o começo da década de 1960, Queiroz é taxativo: ``O CAD inaugurou um momento novo``. Para além do aporte de novas técnicas de interpretação e novas diretrizes de encenação, o veterano põe em evidência uma contribuição que julga decisiva. ``O CAD trouxe uma hierarquia para a cena local, que só mesmo uma escola é capaz de produzir. É quando a gente deixa de querer fazer tudo e foca uma habilidade específica. Parte do brilhantismo do CAD vem daí. O CAD é o grande responsável por qualificar a cena cearense``, argumenta. (Magela Lima)

• O Povo | 2010-01-24


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