
Num festival de grande porte como o de Curitiba não é muito fácil detectar tendências ou destaques. No entanto, a voz poderosa de Rosana Stavis se impôs na programação de 2009, tanto no contundente monólogo Árvores abatidas, texto do dramaturgo austríaco Thomas Bernhard, devidamente adaptado pelo diretor Marcos Aurélio Damaceno (com quem a atriz é casada), quanto no divertido Ópera atômica – As sete caras da verdade, mistura de ópera e quadrinhos que celebra a parceria entre Mauricio Vogue e Nico Nicolaiewsky, novamente agendado para o festival desse ano. Em ambos os trabalhos, Rosana foi aplaudida em cena aberta. Na nova edição do festival, que tem abertura marcada para a próxima terça-feira com Till, a saga de um herói torto, encenação do Grupo Galpão para o texto de Luís Alberto de Abreu, a atriz fará, dentro do Fringe, Psicose 4h48, de Sarah Kane, mostrado no Brasil, há alguns anos, por Isabelle Huppert. Não é um espetáculo novo. Rosana começou a apresentá-lo em 2003 e logo passou a integrar o repertório da Marcos Damaceno Companhia de Teatro. Mas será, com certeza, uma ótima oportunidade para revê-la em cena.
– Em Psicose 4h48 desço às profundezas da depressão. Alguns espectadores não conseguem assistir e saem – diz Rosana, acerca do texto de Kane, escritora que se suicidou em 1999. – Reproduzimos um ambiente frio, quase uma sala de hospital. E encenamos para poucos espectadores (40, no máximo), em formato de semiarena.
Palco itinerante
Psicose 4h48 (que poderá ser visto Brasil afora, de abril a dezembro, dentro do projeto Palco Giratório, juntamente com Árvores abatidas) foi, possivelmente, o trabalho mais difícil da carreira de Rosana Stavis.
– Íamos fazer apenas uma leitura da peça num ciclo de dramaturgia. Mas acabamos nos entusiasmando e partimos para a montagem. Estava grávida, na época, e voltei à cena apenas 10 dias depois do nascimento da Julia. Passados seis meses tive uma depressão pós-parto. Michele Pucci me substituiu. Fiquei um ano e meio tomando antidepressivos – recorda Rosana, que vai trazer o espetáculo para o Rio, em agosto, na Caixa Cultural.
Com Psicose 4h48 Rosana ganhou um de seus quatro troféus Gralha Azul – os outros foram por A vida de Galileu (na montagem de Celso Nunes, com Paulo Autran), de Bertolt Brecht; Pluft – O fantasminha, de Maria Clara Machado, e Sonho de outono, texto de Jon Fosse já encenado no Rio por Renata Sorrah, sob a direção de Monique Gardenberg.
Ao longo do tempo, Rosana se impôs no panorama teatral como uma atriz versátil. Integrou os elencos de montagens de textos diversificados, como o amargo No Natal a gente vem te buscar, de Naum Alves de Souza, a tragédia carioca A falecida, de Nelson Rodrigues, O marinheiro, de Fernando Pessoa, e A ópera dos três vinténs, de Brecht.
Com a Sutil Cia. de Teatro, capitaneada por Felipe Hirsch, participou de Por um novo incêndio romântico, A vida é cheia de som e fúria, Alice e Juventude. Trabalhos diferentes atravessados por sua voz potente.
– Logo no começo da carreira fiz musicais. Os atores não usavam microfones. Percebi que tinha um grande potencial vocal. No entanto, meu percurso foi mais autodidata. Sou observadora. Aprendo rápido – comenta Rosana Stavis. – Passei a brincar com a ópera, mesmo sem ter formação de cantora. A mãe de Pluft, para citar um exemplo, falava tudo de modo operístico.
Palco para nomes consagrados e grupos estreantes
A capital paranaense começará a respirar teatro a partir de terça-feira, data de abertura da 19ª edição do Festival de Curitiba, que contará com 28 espetáculos na Mostra Oficial e 358 no Fringe.
– Teremos montagens de textos da nova dramaturgia brasileira e de clássicos, companhias estáveis e grupos que se juntaram para um determinado espetáculo, monólogos e encenações gigantescas, musicais e o chamado teatrão – enumera Leandro Knopfholz, diretor do festival, destacando a natureza totalizante do evento. – Acho que a única tendência que podemos perceber diz respeito ao uso da tecnologia, utilizada, porém, como apoio à palavra. É algo bem presente, por exemplo, em Dulcinea's lament.
Leandro se refere à encenação canadense inspirada em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, com a atriz Dulcinea Langfelder. Há muitos destaques na programação, como Cinema, espetáculo ainda em processo conduzido por Felipe Hirsch; A loba de Ray-Ban, texto de Renato Borghi que ganha montagem protagonizada por Christiane Torloni; Dona Otília e outras histórias, encenação de Gilberto Gawronski, com Guida Viana, que revelará ao público a dramaturgia da falecida Vera Karam; Ghetto, monólogo com Fábio Herford baseado na obra Yossel Rakover dirige-se a Deus, de Zvi Kolitz; Música para ninar dinossauros, trabalho da companhia Cemitério de Automóveis, comandado pelo sempre contundente Mario Bortolotto; O papa e a bruxa, versão do irreverente grupo Parlapatões para o original de Dario Fo; O ruído branco da palavra noite, de Caetano Gotardo e Marina Tranjan, a partir da correspondência entre Stanislavski e Tchecov durante os anos do Teatro de Arte de Moscou; Travesties, de Tom Stoppard, primeira empreitada da Cia. de Ópera Seca sem a direção de Gerald Thomas; Vida, da Companhia Brasileira de Teatro, de Marcio Abreu; Macbeth, releitura de Aderbal Freire-Filho para a tragédia de William Shakespeare; e Formas breves, marcando a volta de Bia Lessa à direção teatral.
Outros espetáculos vão desembarcar em Curitiba já cobertos de elogios. São os casos de As meninas, nova versão para o romance de Lygia Fagundes Telles; do aclamadíssimo In on it, de Daniel MacIvor, calcado nas interpretações minuciosas de Fernando Eiras e Emilio de Mello; Um navio no espaço ou Ana Cristina César, projeto de Paulo José e Ana Kutner,; Versão brasileira, musical em que Claudio Botelho e Charles Möeller passam em revista seus 20 anos de parceria; Oui oui... A França é aqui – A revista do ano!, também musical, no qual Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche brincam com a influência francesa no Rio; Memória da cana, releitura de Newton Moreno, à frente do grupo Os Fofos Encenam; de Álbum de família, de Nelson Rodrigues, a partir de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Farsa da boa preguiça, bem-sucedido mergulho de João das Neves no universo de Ariano Suassuna.
Nessa edição, nenhum espetáculo do Nordeste foi selecionado.
– Convidamos uma montagem de Carícias, mas acabamos não conseguindo trazer devido à estrutura exigida – justificaKnopfholz, em relação à encenação do texto de Serge Belbel.
Seguindo o modelo do Festival de Edimburgo, o Fringe – parte do festival que reúne espetáculos incluídos na programação por ordem de inscrição e não a partir de um processo de seleção – costuma causar polêmica, em especial por nem sempre oferecer um panorama da produção teatral brasileira, já que montagens do Norte e Nordeste muitas vezes não conseguem chegar até Curitiba.
– Há dificuldades no que se refere à geografia e à logística. Mas já recebemos encenações de países como Portugal, Angola, Alemanha e Espanha nas mesmas condições – assinalao diretor do festival.
Com Marcos Damaceno, Rosana trabalhou em Água revolta, de autoria do próprio diretor, e Árvores abatidas, encenação que causou polêmica ao fazer referência direta a nomes de ponta do teatro de Curitiba. Não por acaso, o título completo é Árvores abatidas ou para Luís Melo – citação ao ator que saiu da capital paranaense, tornou-se o integrante mais importante das montagens de Antunes Filho no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), ingressou na televisão e voltou para Curitiba, onde criou o Ateliê de Criação Teatral (ACT).
– Curitiba tem fama de ser provinciana, mas há vários grupos de pesquisa na cidade. Na companhia procuramos olhar para fora. Tiramos dinheiro do bolso para viajar. Gostamos de entrar em contato com públicos diversos do curitibano, que é bastante sério – opina Rosana, sem desmerecer a plateia da cidade.
No decorrer de seu percurso profissional, iniciado há pouco mais de 20 anos, quando terminou a faculdade de artes cênicas na PUC, Rosana firmou parcerias determinantes, como com Mauricio Vogue, que a dirigiu em alguns espetáculos (o infantil A revolução dos livros e o já citado Ópera atômica). Rosana e Mauricio também contracenaram em montagens como New York por Will Eisner, O menino maluquinho e Pluft.
– Ela tem um raciocínio rápido, ótimo trabalho de corpo e uma voz poderosa. Considero uma atriz completa – elogia Vogue, vocalista, ao lado de Rosana, da banda Denorex 80, que surgiu em 2003.
O trabalho com a banda, como o nome indica, tem foco nos anos 80.
– A banda começou quando um grupo de amigos se reuniu numa mesa de bar e começou a conversar sobre as músicas daquela época – recorda a atriz. – A princípio, fizemos uma apresentação gratuita no Prêmio Café do Teatro. Mas virou uma febre.
• Daniel Schenker | Jornal do Brasil | 2010-03-14
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