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La escena iberoamericana

Brasil. Baseado no clássico de James Joyce atualiza relação entre vida e arte

Sobre o que pensam os jovens artistas contemporâneos? Quais sãos as suas maiores inquietações, dilemas e aspirações? Seria a arte uma forma pura ou um instrumental cínico para se desvencilhar de contextos sociais desfavoráveis, dogmas religiosos ou opressões de qualquer tipo? Essas e muitas outras questões serão abertas, parcialmente respondidas, mas principalmente ampliadas no espetáculo Do artista quando jovem, que estreia sexta-feira no Espaço Sesc.

Idealizado pela Aquela Companhia, o texto inédito escrito por Pedro Kosovski parte da Irlanda do início do século 20 para recriar as angústias, experiências e descobertas, da infância ao fim da juventude, de Stephen Dedalus – espécie de alter ego de James Joyce em seu primeiro romance, O retrato do artista quando jovem. Clássico da literatura mundial, e referência para jovens artistas desde a sua publicação, em 1916, o escrito ganha tratamento renovado em linguagem pop.

– Justamente por vivermos num mundo mais efêmero e fugaz que entendemos a necessidade de retorno aos clássicos. Mas de uma forma não-ortodoxa – frisa o autor. – Queremos recriá-los com uma liberdade pop. Não precisamos ser fiéis ao que eles disseram. Não podemos encarar os textos clássicos como uma barreira, um impedimento reverente. Queremos construir um novo olhar e para isso é preciso desprendimento.

Não é de hoje que a companhia debruça sobre clássicos da literatura mundial e lhes empresta novo fôlego. Em 2005, uma indicação ao Shell pela recriação da obra de Franz Kafka, em Projeto K, assinado por Walter Daguerre, estimulou a pesquisa. Um ano mais tarde, estrearam Sub:Werther, apoiado na mescla entre Sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, e Fragmentos de um discurso amoroso, de Rolland Barthes. Há dois anos, o também ator e diretor Kosovski dividia a sua primeira assinatura com Daguerre. Era a vez de Herman Hesse ser esmiuçado, em Lobo nº1: A estepe, adaptado da obra O lobo da estepe.

– Estabelecemos diálogos com essas grandes obras para criarmos algo inédito e original – explica. – Estudamos a vida e as obras do Joyce a fim de investigar se as questões levantadas pelo autor na Dublin do século 20 ressoam da mesma forma nos jovens artistas do Rio. O que permanece como questionamento, e o que mudou com a passagem do tempo.

Em seu primeiro texto individual, desenvolvido em meses de colaboração com o diretor Marco André Nunes, Kosovski se impôs o desafio de levar aos palcos não apenas um dos maiores escritores do século passado, mas a possibilidade de reflexão sobre a fragmentação da memória e do tempo em meio à enxurrada de informações que inundam o começo do século seguinte. Tenta entender e fazer pensar sobre o lugar da arte num mundo em rápidas transformações e efêmero como o atual. Para tal, antes do início da peça, um pequeno curta documentário será exibido num telão. Nele, o público entra em contato com o pensamento de artistas de vertentes distintas, como os cineastas Matheus Souza (Apenas o fim) e Wagner Novaes (5xs favela), os atores Gregório Duvivier e Mateus Solano, e a estilista Ludmila Bruscky (Cantão).

– São as boas-vindas à plateia, e a introdução para o público ir se familiarizando com temas da peça – explica o diretor Marco André Nunes.

Refletindo sobre o lapso histórico que separa em quase 100 anos o contexto do jovem Dedalus e o dos jovens entrevistados, o autor ressalta algumas diferenças.

– Dedalus tinha um olhar mais virginal sobre a vida e a arte. Durante as entrevistas percebi que a pureza de Joyce se reverteu para um olhar mais cínico. Acho que o mundo e os jovens artistas estão inseridos numa cultura pop, que é de superfície, menos profunda.

Identidade perdida
Os dogmas e tabus arraigados à experiência religiosa do autor também servem como exemplo.

– A religião é uma questão menor e menos problemática para os jovens de hoje do que para um menino da Irlanda naquele tempo – acredita Kosovski.

No palco, o personagem central da trama confunde-se com a trajetória pessoal do autor. Após despertar sem memória, Dedalus tenta recuperar sua identidade. Conforme o tempo passa, recobra as lembranças da primeira infância e os ensinamentos religiosos que moldaram seu comportamento, até o momento em que rompe com a opressão dogmática e com as memórias que o sufocam.

– Ele se liberta e descobre a arte como um voo de possibilidades – diz Kosovski. – É a partir daí que inicia todos os seus questionamentos e reflexões sobre o fazer artístico. Descobre que para poder criar não precisa descobrir quem foi no passado. O caminho é inverso. Para criar nada melhor do que se desprender da pessoa que ele era.

Considerando-se um artista em formação, o ator e estudante de teatro Igor Angelkorte, que dá vida a Dedalus no palco, chama a atenção para a potência de inspiração e rejuvenescimento da obra de Joyce:

– Ele descreve a possibilidade de alcançar a beleza, o inesquecível e o memorável através da criação. A emoção e o frescor que a descoberta da arte retém não deveriam se perder nunca.

• Luiz Felipe Reis | Jornal do Brasil | 2010-03-19


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