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La escena iberoamericana

Brasil. Festival de Curitiba: Fringe oferece cardápio variado de peças

Desde 1998, quando o Festival de Curitiba incorporou o Fringe, reproduzindo a mostra paralela do Festival de Edimburgo, que esse corpo teatral vem crescendo exponencialmente. Se no primeiro ano eram sete espetáculos, nesta 13ª edição são mais de 350 montagens que disputam a visibilidade que o festival promove no curto espaço de sua realização. É uma oferta massacrante, em que cabem todo e qualquer franco-atirador, desde que tenha condições de ocupar algum dos muitos espaços disponíveis para a abrigá-los. A produção do festival apenas cria alguma infraestrutura para que os grupos possam se apresentar, mas o que trazem para mostrar, como chegar a Curitiba, e como aliciar o público para as apresentações, fica por conta e risco de cada grupo. Neste balaio teatral, cabe de tudo, desde um grupo de Iracemápolis, interior de São Paulo, que mostrou com um grupo de crianças A hora e vez de Augusto Matraga, até Cachorro, bem sucedido espetáculo de Vinícius Arneiro, como aconteceu neste ano.

Há apelos vulgares, experimentação equivocada, montagens de conclusão de curso de teatro, investidas amadoras, apostas comerciais, e tudo o que possa caber em uma feira que expõe tantas mercadorias. Com esta abusiva oferta, não há plateia para a maior parte deste derramamento de espetáculos, e o que se constata são salas com menos de uma dezena de espectadores, panfletagem dos grupos em torno da sede do festival, e algumas exibições gratuitas, como forma de atração. Ao longo dos anos e a partir da constatação de todos esses problemas, a direção do festival, mesmo mantendo a posição de não interferir na seleção dos espetáculos do Fringe, flexibiliza a ideia “democrática” da mostra, com eventual seleção para alguns espaços. Este ano, o teatro Novelas Curitibanas abrigou montagens escolhidos por um curador, o mineiro Chico Pelúcio, que trouxe propostas cênicas de Belo Horizonte e de São Paulo.

O grupo mineiro Trama mostrou John & Joe, da autora húngara Ágota Kristof, com direção de Eid Ribeiro. Num bar, o encontro de dois bêbados, sem rumo, desenrola uma conversa conduzida pela lógica alcoólica, na qual situações algo absurdas determinam e estabelecem as razões dessas existências vagantes. Num clima levemente beckettiano, com parcimônia de palavras e movimentos que se aproximam da mímica, o diretor conduz com empenho, mas sem criar efetiva atmosfera, o trio de atores. De como fiquei bruta flor, da Cia. Livre de São Paulo, traz um poema dramático de Claudia Shapira que trata da separação amorosa do ponto de vista feminino. Duas mulheres, em 10 etapas do desencontro afetivo, mergulham nas delícias do encontro, na dor da separação e na liberdade da superação. O texto de Shapira não demonstra vitalidade poética, banalizado por imagens que remetem ao convencional. A diretora Cibele Forjaz revestiu esse material pouco estimulante dos recursos de sua “máquina teatral”, que inclui o público como elemento ativo e o ator como veículo de construção cênica. Com duas atrizes, Lucienne Guedes e Mariana Senne, identificadas com o jogo narrativo da representação e da ritualização do ato teatral, ampliam os limites do texto.

O Fringe, naquele que talvez seja o seu melhor segmento, reúne a produção do teatro curitibano nos 11 dias do festival, destacando as montagens de diretores que mantem a diversidade cênica da cidade. Nesta edição, a amostra foi bastante satisfatória, não só pela volta de Felipe Hirsch à Curitiba, depois de anos de intinerância da sua Sutil Companhia, como pela inclusão de Marcio Abreu na mostra contemporânea. Hirsh, além de Cinema, apresentou o instigante Não sobre o amor, e volta a instalar a companhia na sua cidade de origem. Marcio Abreu, com a pulsante Vida demarcou lugar na cena atual, que se confirma pelo exercício em Descartes com lentes, em que utiliza o brilhante texto de Paulo Leminski no mesmo registro inteligente da sua escrita. A palavra é encenada por sua interioridade narrativa, descolada do dramático para reinventar-se, como no texto, outros pontos de recepção. Numa perspectiva menos inquieta, mas nem por isso mais “fácil”, o diretor Marcos Damaceno, com a sólida interpretação de Rosana Stavis, dimensiona com integridade o mergulho de Sarah Kane em Psicose 4h48. A vida como ela é – Nelson Rodrigues traz dramaturgia que evita o “óbvio ululante” de tantas colagens sobre o universo rodriguiano. Com a ambientação de um espetáculo teatro em plena concepcão, o diretor Edson Bueno cria paralelismos com alguma inventividade. Manson supestar prossegue na linha do diretor Paulo Biscaia Filho, que pede emprestado ao cinema e ao “trash” o material de suas montagens. Desta vez, com a “quadrinizacão” do crime da “família de Charles Mason”, que matou a atriz Sharon Tate, mulher do cineasta Roman Polanski, na década de 60, Biscaia está menos hábil na manipulação de suas obsessões cênicas.

Em outra mostra paralela, a do Sesi Dramaturgia, o diretor Roberto Alvim encenou um dos textos selecionados em concurso do Núcleo de Dramaturgia do Sesi Paraná. Como se fosse o mundo, do curitibano Paulo Zwolinski, a relação de um casal é repassada em várias estágios da vida em comum, com direito a violência velada e explícita. Próxima a um conto, com quadros estanques, e diálogos em ritmo literário, a peca de Zwolinski aponta mais para suas possibilidades futuras como autor, do que propriamente por esta primeira tentativa. Alvim confronta o casal com a plateia, criando uma contraluz através de luminosidade mortiça que incide diretamente nos olhos do espectador. Os atores são apenas sombras, que se delineiam-se, vagando pelo palco, figurando-se através das falas. Um artifício do diretor, que deste modo conferiu uma dimensão mais extensa e provocante do que o restrito e passivo alcance do texto.

• Macksen Luiz | Jornal do Brasil | 2010-03-28


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