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La escena iberoamericana

Brasil. Rio: Diretores discutem ausência de montagens dos clássicos em palcos

A tragédia grega, em sua forma clássica, parece distante dos palcos do Rio. Poucos são os grupos, diretores ou atores que reúnem coragem para investir numa das peças de Ésquilo, Sófocles ou Eurípedes numa época em que o riso se tornou palavra de ordem. Ainda assim, uma panorâmica dos últimos 20 anos traz à tona encenações bem-sucedidas assinadas por Moacyr Góes (em especial, Antígona) e Eduardo Wotzik (Troia). Mais recentemente, Bia Lessa arriscou ao montar Medeia num Teatro Dulcina bombardeado e João Fonseca apresentou o seu Édipo unplugged, com os atores trajando figurinos contemporâneos. Nesse momento, Guilherme Leme mostra RockAntygona, apropriação contemporânea da Antígona de Sófocles por Bertolt Brecht. E Antonio Guedes e Fátima Saadi, à frente do Teatro do Pequeno Gesto, anunciam para o meio do ano a estreia de uma nova versão de Antígona.

Não é a primeira vez que o Pequeno Gesto se volta para a tragédia clássica. Em 1986, antes mesmo de o grupo ser batizado, Antonio Guedes e Helena Varvaki conduziram uma encenação de Antigone (texto adaptado por Alberto Tibagi e Christine Lopes), na qual ambos assumiram papéis centrais – ele, o de Hémon, e ela, o da protagonista. Em 2002, a companhia apostou em Medeia.

– Sempre pensamos o trágico como estrutura dramatúrgica, no sentido de evidenciar a construção da cena e não de ocultá-la – diz Antonio Guedes.

Na nova montagem de Antígona (interpretada pela atriz Mariana Oliveira), o coro será virtual.

– Não concebo trabalhar tragédia grega sem encarar o problema do coro. Estamos inserindo o coro como imagem de multidão. Por um lado, a ideia é a de não conferir presença efetiva a ele; por outro, de misturar a imagem do coro com a da plateia, que será captada ao vivo – adianta Guedes.

O desejo de retomar Antígona decorre de uma reflexão sobre o sentido do trágico nos dias de hoje.

– A tragédia tem vínculo com a contemporaneidade. Isso acontece por que voltamos a experimentar a mescla entre épico e dramático e o personagem não é mais vinculado ao realismo – analisa Guedes. – Temos o realismo mais ingênuo e o mais fragmentado. Penso nos personagens de Open house, de Daniel Veronese, que contam suas vidas, mas lançam desconfianças sobre o que é contado.

Não por acaso, essa releitura de Antígona partiu de um grupo de estudos em torno do trágico e da encenação contemporânea, na UniRio, conduzido por Fatima Saadi. A dramaturgia ganhará com a inclusão de três monólogos centrados em pontos específicos da tragédia – mortos sem sepultura, a justiça, o herói – encomendados a Walter Daguerre, Marcia Zanelato e Luiz Reis.

À frente da montagem de RockAntygona, Guilherme Leme valoriza a conexão entre o teatro e outras manifestações, principalmente as artes plásticas.

– Minha primeira intenção foi a de fazer um espetáculo multimídia. Helio Oiticica se tornou muito presente durante o processo. O neoconcretismo veio forte como linguagem estética. Aí aconteceu a perda de 80% da obra dele, no incêndio. Seguimos buscando a esfera sensorial. As pedras surgiram sob a influência de Oiticica – destaca Leme, referindo-se a um dos principais elementos da cenografia, que sinaliza o percurso tortuoso atravessado por Antígona. – Mas não conseguiria seguir até o fim nesse caminho. Precisava de algo mais contemporâneo. Então, pensei: “vou botar uma mesa e uma cadeira e trazer essa história para a nossa era. Creonte (o antagonista) será um executivo poderoso”.

Guilherme Leme tem dúvidas em relação à viabilidade da tragédia clássica no contexto atual.

– O texto do Sófocles é tão bonito que dá medo de mexer. Mas é lindo para ler. Colocar em cena se torna complicado. Os temas permanecem atuais, mas a estrutura dramatúrgica, não. Por que os textos trágicos são traduzidos na segunda pessoa? Naquela época se falava assim. O objetivo era ser acessível. Hoje, porém, provoca distanciamento – opina Leme, que já visitou o universo trágico em Medeiamaterial, de Heiner Muller, espetáculo dirigido por Marcio Meirelles, realizado em parceria com o Grupo Olodum, no qual atuou ao lado de Vera Holtz.

Porta-voz do grupo Mergulho no Trágico, que vigorou entre a segunda metade da década de 80 e a primeira da de 90, José da Costa evoca a efervescência daquela época.

– No início, o estímulo não era fazer teatro profissional, e sim discutir a vida contemporânea por meio da nossa subjetividade – recorda Costa. – Pedia para os atores falarem o texto do Édipo buscando ligação com aquele momento.

O grupo começou dentro da faculdade Helio Alonso, em 1987, época em que Costa era estudante de comunicação. Conseguiu reunir cerca de 50 pessoas em torno de um estudo sobre o trágico. Os integrantes passaram a fazer apresentações em pátios de escolas e quadras esportivas, acompanhados por professores, como Tania Brandão e Beti Rabetti. Aos poucos, o Mergulho no Trágico se profissionalizou sem perder de vista o público universitário. Outros espetáculos surgiram – Oréstia, Prometheus, Antígona, As troianas – conduzidos por um núcleo também formado por Nancy Freitas, Tatiana Motta Lima, Alexandre Mello e André Paes Leme, com a contribuição de Regina Guttman.

Através do grupo, José da Costa marcou uma posição naquele momento específico do teatro no Rio:

– A cultura na cidade estava ligada ao humor, à leveza. O besteirol fazia sucesso. Sempre vi muita graça no besteirol, mas queria descobrir outra via.

Diretor à frente de um grupo de teatro de repertório, o Tapa, Eduardo Tolentino de Araújo assume a frustração por ainda não ter se aventurado no campo da tragédia.

– Não dá para fazer tragédia como um movimento arqueológico. Cabe encontrar um jeito de dizer que se adapte ao nosso tempo, respeitando, contudo, a espinha dorsal. A tragédia é bastante contemporânea, sob o ponto de vista temático. Mas é distante da formação dos nossos atores – comenta Tolentino. – Há uma forma a ser dominada e para tanto é preciso um longo tempo de preparação. No entanto, os atores costumam ficar entre a TV e outras produções. Como fazer um trabalho que mexe com o sagrado nessas condições?

• Daniel Schenker | Jornal do Brasil | 2010-04-02


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