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La escena iberoamericana

Brasil. Dramaturgo interpreta avó na remontagem de "Do fundo do lago escuro"

Domingos Oliveira admite estar vivendo uma das experiências mais pitorescas de sua longa trajetória nos palcos. É que em Do fundo do lago escuro, que estreia na depois de amanhã no Teatro das Artes do Shopping da Gávea, e fica em cartaz até o dia 27 de maio, o dramaturgo interpreta uma personagem inspirada em alguém com quem conviveu de perto: a própria avó. De peruca, maquiagem e enchimentos, ele se transforma na severa Dona Mocinha, uma velha matriarca que se esforça para manter o controle e preservar a moral de uma típica família burguesa carioca da década de 50.

– Em um dos ensaios, fui para o camarim de calção e coloquei aquele sutiã de peitos grandes. Quando me olhei no espelho, tomei um susto. Pensei: “Sou uma hermafrodita!”. Não está sendo nada fácil – brinca Domingos.

Escrita há mais de três décadas, a obra narra um dia na vida da família do autor e tem como matéria-prima as memórias afetivas de sua infância.

– É a famosa história da família brasileira que dilapida uma fortuna em uma única geração – afirma o diretor. O pano de fundo da trama é a tensão dos últimos momentos da Era Vargas, com Dona Mocinha esperando ansiosamente por um discurso de Carlos Lacerda.

Do fundo do lago escuro foi encenada pela primeira vez em 1980, com direção de Paulo José e a luxuosa presença do casal Fernanda Montenegro e Fernando Torres no elenco. Mais do que uma remontagem, o espetáculo é uma nova versão do original, com direito a novas falas, obsessivamente alteradas pelo diretor ao longo dos ensaios. Há ainda uma espécie de pós-scriptum, no qual Domingos revela para a plateia que fim levou cada um dos personagens.

Para embaralhar ainda mais os papéis familiares fictícios e reais, Priscila Rozenbaum, mulher de Domingos na vida real, interpreta Conceição, filha de Dona Mocinha e mãe do menino Rodrigo, inspirado no autor quando criança. O elenco conta também com um irmão e um sobrinho-neto do dramaturgo.

– O Domingos teve a ideia de montar a peça quando percebeu que eu já estava na idade de fazer a mãe dele. É uma relação psicanalítica muito complicada – explica Priscila.

Peça pode virar filme
Henrique, pai de Domingos na peça, é interpretado por Paulo Betti, um parceiro de longa data. Os dois trabalharam juntos pela primeira vez num quadro do Fantástico, no início da década de 80. Para o ator, apesar de a história se passar há mais de 50 anos, o texto não envelheceu:

– São conflitos básicos que continuam acontecendo todos os dias. Os avós, por exemplo, continuam não gostando de separações. As coisas não mudaram tanto assim – diz Betti.

Apesar de ter ganhado o prêmio de Melhor Texto de Comédia, conferido pelo extinto Serviço Nacional de Teatro em 1977, Domingos está certo de que Do fundo do lago escuro possui um forte apelo dramático.

– Sou sempre da opinião de que a lágrima torna o riso mais nobre. O riso sem a lágrima é banal, é um reflexo animal – arrisca o autor, que garante ter sido o primeiro artista da família.

Um dos novos projetos de Domingos, que não para de fazer e concluir projetos (“Se não morro”) é levar o texto para as telas de cinema, com Fernanda Montenegro interpretando Dona Mocinha. A ideia, segundo o diretor, teria partido da própria atriz. Por enquanto, ele torce pelo sucesso da nova montagem nos palcos e lamenta a dificuldade de encontrar patrocínio para os seus trabalhos.

– Consegui patrocínio, mas não consegui entrar no horário nobre – lamenta o dramaturgo. – É a mesma lógica que rege o cinema, hoje. Tem teatros que se não tiver ator de televisão, eles não aceitam.

• Pedro Schprejer | Jornal do Brasil | 2010-04-05


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