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La escena iberoamericana

Brasil. Peça 'Colapso' une crítica social e sarcasmo para observar o homem

O ano é 2002, o país se prepara para eleger um novo presidente e o diretor Hamilton Vaz Pereira se esforça para fixar o ponto final de um novo texto. Oito anos depois, às vésperas do fim do segundo mandato do candidato eleito, ele retoma a tentativa que havia abandonado pela primeira vez no início da década de 80. O deslocamento temporal não é problema para o diretor. Pelo contrário, é, sim, objeto de investigação para sua nova peça, Colapso – cartaz do Teatro Poeira a partir de sexta-feira. Passado em 2006, e encenado em 2010, sob a expectativa de novas eleições presidenciais, o texto ganha o palco para tratar da crise de valores que “acontece no mundo dos mortais”, diz.

– Observo todos que lutam pela sobrevivência há zilhões de anos e que procuram fazer daqui o seu mundo – resume.

Observando o Brasil do século 20 até os dias de hoje, a comédia cria uma hipótese teatral para o futuro do país no ano de 2010. Em meio a embates morais, religiosos, políticos, culturais e de outras esferas, o diretor observa o colapso do ser humano e de seus valores, assim como do mundo que o cerca. Nas palavras do próprio, trata-se de um espetáculo para “divertir, emocionar e pensar”.

– A peça apresenta o descompasso da elite brasileira com a vida real do país; o business, a mesquinhez, a ostentação, o exercício do poder de poucos endinheirados e de outros que querem tirar casquinha e aproveitar a vida boa a qualquer preço – explica.

Fincado em 2006, o texto acerta, por exemplo, quando prevê a reeleição do presidente e arrisca um palpite inusitado para a sucessão de 2010.

– É curioso encenar a peça no ano das tais previsões – diz o ator Osmar Prado. – O texto diz que a disputa será vencida por uma morena de olhos verdes e gostosa como ela só. Pode ser a Dilma ou a Marina, mas nenhuma da duas... Enfim, você sabe.

No palco, Vaz constrói uma miríade de possibilidades de observação e interpretação para o escrito. Entre os temas centrais, destaca a dicotomia entre os endinheirados e os pobres, entre os poderosos e os desfavorecidos; expõe o duelo do homem com o tempo, da memória com o esquecimento, do sucesso com o fracasso; investiga as relações entre amor, sexo e amizade, os meandros da política brasileira, dos negócios bélicos e, por fim, lança um olhar sobre o povo que se vira como pode em meio ao fogo cruzado.

– São acontecimentos vividos nos ambientes cultos e endinheirados. No Brasil, apresenta personagens da elite e outros que desejaram ascender à alta sociedade. Já numa perspectiva mundial, damos atenção às rachaduras sociais e ao esforço artístico em criar alternativas para a vida – frisa Vaz.

Na visão artística e pessoal do diretor, o homem cria e assiste teatro para lembrar que está vivo, para esquecer que morre e para ter com que o brincar. E é por isso que Colapso ganha vida.

– Sabemos que um dia vai ter fim. E é por isso que o homem ri da dor, chora de alegria, dança com a morte, conta e ouve histórias, e acredita que pode dar sentido à vida. Enquanto isso não acontece, ele vocifera, enfrenta catástrofes, cria...

No palco, Osmar Prado interpreta o executivo Bonaldo Calidh, presidente da Morvhan & Calidh e um dos homens poderosos do Brasil, negociante de armas para os iraquianos e destruidor de baleias azuis. Já Lena Brito, vive Tuta Morvhan, senhora da alta sociedade, casada com o embaixador Morvhan, que segue seu destino segurando um yorkshire chamado Zaratustra. O embaixador Wallace Morvhan (André Mattos), a atriz, modelo e manequim Cizâniaa (Emanuelle Araújo), e o escritor teatral Tim Alessandra (Ricardo Tozzi), compõem o quadro de personagens multifacetados traçado pelo diretor.

– Os personagens não são muito realistas, mas de jeito algum desprovidos de realidade – observa Prado. – O Bonaldo é um sujeito sem escrúpulos, que se aproveitou de todas as oportunidades para enriquecer, sem um pingo de ética, sempre envolvido em negócios escusos. E ele inicia a peça dizendo coisas como “Estou me sentindo tão extraordinário”. Ou seja, não tem culpa, autocrítica, moral... Eu tento mergulhar ao máximo na loucura e no absurdo do Bonaldo. Quanto mais eu acredito e entro no seu universo sem preconceito ou crítica, maior é a reação da plateia.

Entre Maluf e o absurdo

Pela primeira vez trabalhando com Vaz, o ator elogia a capacidade crítica e o sarcasmo do diretor.

– Sem querer impor sua opinião, o Hamilton é, ao mesmo tempo, crítico e bem-humorado. Ele levanta diversas questões, e forma uma análise dessa nossa tragicomédia – elabora Prado. – Na quarta-feira mesmo, li que o Maluf propõe a penalização de qualquer pessoa que acuse um político de irregularidades. É um absurdo, a democracia serve para que sejam investigadas questões de toda ordem. Mas é um pouco disso que vemos no texto. Meu personagem lida e reforça o absurdo. Apesar de tudo que faz, ele não se furta a pedir uma benção especial ao papa.

Serviço:
Colapso
Teatro Poeira, Rua São João Batista, 104, Botafogo (2537-8053). 5ª a sáb., às 21h; dom., às 19h. R$ 40 (5ª e 6ª) e R$ 50 (sáb. e dom.). Estudantes e idosos pagam meia. 14 anos. Duração: 1h20. Cap.: 160 pessoas

• Luiz Felipe Reis | Jornal do Brasil | 2010-04-08


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