
O último 27 de março, dia Internacional do Teatro, foi escolhido estrategicamente para que a Cennarium – It's Showtime aterrissasse no webespaço brasileiro. Pioneira na transmissão de espetáculos e peças de teatro via internet, a empresa investiu cerca de R$ 10 milhões para a implantação de um serviço que pretende “impulsionar o entretenimento cultural” e agir como “instrumento de fomento do teatro brasileiro”. Não é a primeira vez, é claro, que a internet cruza o palco para propor uma nova experiência. Mas é, sim, o primeiro grande investimento financeiro a vislumbrar e apostar num caminho aparentemente sem retorno, assim como ocorreu com a música, o cinema, as artes plásticas e, mais recentemente, com a literatura, invadida por plataformas digitais de leitura, como o Kindle e o iPad.
O teatro na web se esgueira como possibilidade de complemento, uma nova linguagem híbrida que não pretende substituir a experiência teatral in loco. Para alguns diretores, filmar e assistir a peças em frente ao computador “não chega a ser teatro, é outra coisa”, diz Hamilton Vaz Pereira; para outros, “É claro que é teatro, mas é preciso achar uma linguagem”, opina Guilherme Leme. Todos concordam num ponto: é um caminho sem volta.
Lá fora, encenações transmitidas ao vivo com links integrados em países com fuso horários diferentes já haviam sido realizadas. Por aqui, diretores, atores e artistas se empenham em discutir, se adaptar e buscar novas formas de o teatro se utilizar dos meandros criados pela internet. Um deles é a diretora paulista Renata Jesion. Ao lado do fotógrafo e cenógrafo Nelson Kao, ela desembolsou cerca de R$ 40 mil para criar, no fim de 2008, o portal Teatro Para Alguém (http://www.teatroparaalguem.com.br), a primeira sala virtual do país.
A sala é o palco
Entendendo o teatro no país como uma guerrilha, feita por poucos, para poucos e com pouco dinheiro, Renata quer manter distância de uma repetição do teleteatro, assim como das filmagens convencionais experimentadas por companhias e lançadas em DVD. Com uma mesa de luz, 12 refletores e uma câmera, eles gravam atuações em sequência e montam a peça em episódios postados na web. Como o nome indica, é teatro feito em casa, no caso, a de Renata, e para ser assistido em casa, pela internet. As peças são hospedadas nos portais de vídeo YouTube e Vimeo; pelo Twitter, são anunciadas as atrações; e no Flickr, são postadas as fotos das encenações. No site, cujas seções simulam os cômodos de uma casa, o internauta pode assistir o que se passa na Grande Sala, atualizada com minisséries semanais; no Sótão, que disponibiliza novos atos teatrais a cada mês; e na Sala de E-Star, com seções ao vivo apresentadas por streaming. Tudo de graça. E assim permanecerá.
– É uma experiência para somar. É mais um canal, que se empenha em desenvolver e buscar um novo meio. Teatro pela internet é, sim, teatro. Provamos isso há um ano e meio – defende a diretora. – Registramos o suor e a adrenalina do ator com apenas uma câmera. Ela age dentro e fora de cena, como se fosse um ator, porque interfere.
Renata não acredita que, de fato, criou uma nova forma de expressão. Apesar de saber muito bem o que não quer.
– Não somos pretensiosos a esse ponto. Trabalhamos numa mistura. Não fazemos um registro, porque tentar documentar uma peça não leva a lugar algum. Nunca foi bom assistir a peças em DVD. Também não queremos a tecnologia e o aparato do cinema ou da TV. A proposta é descobrir novos caminhos para a interpretação teatral, garantir liberdade total para a criação.
Para criar as montagens postadas no site, que contam com a participação de nomes como Mário Bortolotto e Lourenço Mutarelli, Renata transformou a sala da sua casa numa grande caixa-preta. E para quem quiser conferir ao vivo, ela abre uma brecha, mas para poucos.
– É possível assistir aqui, mas é para poucas pessoas, porque é a minha casa. Banquei tudo até agora, e ele permanece gratuito porque queremos democratizar. Estamos fechando com um grande patrocinador e a demanda e o interesse não param de crescer.
Com um modelo de negócios que prevê a cobrança de créditos de acesso, com valor mínimo de R$ 10 e validade de um dia, além de negociação de cotas de publicidade, a Cennarium também se apóia na democratização. Embasada numa análise de mercado, a empresa identificou a falta de recursos, hábito ou acessibilidade (já que a maioria dos teatros está concentrada no eixo Rio-São Paulo) como problemas a serem solucionados. Com mais de 30 produções em cartaz no site, dividido em seções como comédia, drama, musical, infantil e stand-up, a Cennarium tem como carro-chefe as montagens de O banquete e Estrela brazyleira a vagar - Cacilda, de Zé Celso Martinez Corrêa.
– O fato de um nome como o Zé Celso aderir ao portal dá aval ao caráter sócio-cultural do projeto. É a oportunidade de levar para todas as regiões do Brasil, e do mundo, duas de suas obras – ressalta Roberto de Lima, diretor da Cennarium.
Uma das preocupações de Lima é captar a peça da mesma forma como é apresentada ao público, sem alterar iluminação e sonorização, e respeitando, na edição, interferências como a reação da plateia.
– Acompanhamos a realidade, sem mudar detalhes. A mensagem das cenas não se perde – aponta Lima. – Não vamos substituir a experiência de ver os espetáculos ao vivo, mas sim dar uma opção on demand via web, a qualquer hora e em qualquer lugar.
O ator e diretor Márcio Libar, que há alguns meses criou o Moment show, ao lado de Creso Eduardo Pachmac, defende as novas possibilidades.
– A palavra que impera é a multiplataforma. Nada que você faça hoje em dia deve ser escoado numa mídia só. É uma tendência das comunicações e que interfere nas artes. Posso apresentar uma peça no teatro e transmitir em tempo real por um site e pelo celular. Por que não fazer? Isso é fruto da ampliação das redes sociais.
A partir de seleções semanais realizadas no Teatro Maria Clara Machado, Libar escolhia o elenco que iria encenar e criar, incluindo novas cenas semanalmente, a história do personagem Bebé. Em frente à plateia e a câmeras, a peça era transmitida simultaneamente pela internet através da MomentTV, canal que pode ser acessado pelo http:// momentshow.ning.com
– Devemos trabalhar em cima de uma filmagem ou linguagem que cause impacto semelhante ao que ocorre no teatro. É tempo de pesquisar, de propor um arsenal de experiências. Com essa multiplicação vamos atingir um novo formato – acredita. – No caso da internet, ela só é contundente se for ao vivo. O reality show veio para ficar. O BBB é uma novela, e vamos assistir novelas ou dramas reality daqui para frente, pode apostar. É claro, são especulações. No fundo, o que importa é a emoção que vem do dramaturgo, o olhar do diretor e a alma do ator.
Em cartaz no Rio e em São Paulo, Guilherme Leme é mais do que acostumado ao termo simultaneidade. Ano passado, chegou a dirigir e encenar três peças ao mesmo tempo: O estrangeiro, >i>Laranja azul e RockAntygona. Para ele, até agora as experiências em filmar encenações não foram capazes de criar uma linguagem atraente o bastante. Interessado em explorar novos rumos, ele estuda um convite feito por Renata Jesion para encenar um fragmento de 15 minutos de O estrangeiro.
“É preciso ser bem feito”
– Teleteatro e filmagem como documentação são coisas antigas. Devemos buscar um caminho que sustente a força teatral – diz. – Nossa relação com a internet é inevitável, assim como todo tipo de arte. A web nunca será um substituto ao artesanato do teatro, porque estamos falando em arte performática, em que a energia ao vivo é a mídia. Não é TV e não é cinema; a internet vai impulsionar rupturas e a descoberta de propostas. E é isso que nos interessa. Quero experimentar, brincar, pesquisar e, é claro, encontrar uma forma de sair ganhando.
Autor e diretor de obras nas quais a convergência de mídias ocupa o cenário, Felipe Vidal não pensa em disponibilizar na web montagens que ainda pretende encenar. Planeja, porém, levar à rede as filmagens de Rock'n'roll, texto de Tom Stoppard cuja temporada chegou ao fim.
– Não é como assistir à peça, mas é um contato, uma oportunidade para alguém que esteja do outro lado do país. Tenho simpatia, mas é preciso ser muito bem feito e ter a noção de que é uma outra experiência.
Diretor de Colpaso, em cartaz no Teatro Poeira, Hamilton Vaz Pereira vê a interferência da internet como uma plataforma complementar, que passa longe de diminuir a importância do contato.
– A pessoa não estará assistindo ao teatro, porque teatro não se assiste, ele se cria e a condição fundamental é a presença do espectador. A graça do teatro é o prazer coletivo, comungar o afeto numa experiência única.
Em 2008, Gerald Thomas se arriscou em formato híbrido
No Brasil, em 2008, Gerald Thomas lançou mão das possibilidades da rede para produzir e veicular uma linguagem teatral híbrida que denominou “blog novela”. A experiência ficou no primeiro episódio, O cão que insultava mulheres – Kepler, the dog (2008), encenado no Sesc Avenida Paulista e transmitido em tempo real no blog que o diretor pilotava no portal Ig. A tentativa de criar uma dramaturgia interativa, esculpida a partir dos comentários que os internautas postavam em seu blog, era motivada por uma insatisfação pessoal. “Teatro é chato pra burro. Blog tá meio chato. Jornal é chato. A internet tem essas possibilidades. Resolvi então criar um híbrido”, comentou o autor sobre a ideia à época.
Tempos depois, em setembro de 2009, ao longo de uma série de entrevistas em que anunciava o seu afastamento por tempo indeterminado do teatro, Thomas, um tanto quanto desencantado com a produção artística contemporânea, tomava partido contrário, e insurgia com ceticismo ante à convergência de mídias. “Teatro não é tecnologia, é algo para que o público esteja na presença do ator, a metros dele. Se você tenta transformar em tecnologia, fica pretensioso. Essa integração de mídias é a maior mentira que já houve”, disse.
Procurado agora pela reportagem do Jornal do Brasil, Thomas foi sucinto:
– Vamos ver se tenho saco para isso. Melhor perguntar para os “outros diretores”. Boa sorte – respondeu, por e-mail.
• Luiz Felipe Reis | Jornal do Brasil | 2010-04-18
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