
Eugenio Barba entende o teatro como uma manifestação artística que visa ao espectador. Isto não significa, de forma alguma, fazer concessões com o intuito de captar a atenção da plateia. A interatividade vazia não integra o vocabulário do diretor italiano, fundador do Odin Teatret – companhia criada em 1964, em Oslo, e pouco tempo depois transferida para a cidade dinamarquesa de Holstebro – em visita ao Rio para o evento A teatralidade do humano II, no qual acontece o lançamento do livro A canoa de papel, que reúne textos de diversos espetáculos realizados por Julia Varley em seus 30 anos da demonstração de um trabalho da atriz, O tapete voador,nesta quarte-feira às 19h.
– Eu não vou ao teatro para ver propriamente a revelação do ator, mas para que ele me faça entrar em contato com uma das facetas da minha própria multiplicidade – ressalta Barba, fundador da International School of Theatre Anthropology (Ista), em 1979. – Pode ser, claro, que o ator, ao revelar algumas das suas contradições, leve-me a perceber as minhas.
O diretor chama a atenção para o fato de que cada indivíduo porta uma multiplicidade, talvez desconexa, e não se resume a uma unidade coerente. Em que pese a defesa das especificidades, Barba (e também Jerzy Grotowski, encenador com quem conviveu durante três anos, na década de 60, na cidade polonesa de Opole) busca encontrar aquilo que conecta todos os seres humanos.
– O público é uma grande massa e cada um de nós, um microcosmo diferente. Como pode o ator dialogar com esses microcosmos? No teatro como entretenimento é possível – assinala o autor de A terra de cinzas e diamantes. – Constantin Stanislavski “inventou” a noção de teatro como arte, assim como a de artista como criador e a de espetáculo como obra original.
Barba refere-se ao fundador (junto com Nemirovitch- Dantchenko) do Teatro de Arte de Moscou, em 1898, e criador do chamado Método das Ações Físicas, de acordo com o qual cada ator deveria construir uma partitura de ações formada a partir de associações pessoais.
– O teatro tenta despertar um diálogo com uma parte exilada do espectador, com aquilo que não é mostrado, que não é de bom tom. Todos nós já fomos surpreendidos como uma parte de nós que reage. Não tem nada a ver com identidade cultural. É algo que pertence à esfera da animalidade do ser humano, no sentido mais concreto.
O Método das Ações Físicas problematizou o conceito de memória emotiva, uma vez que a emoção, por não ser possível controlá-la, dificilmente serviria como ponto de partida para o trabalho do ator. A partir do entendimento do corpo como depositário da memória, a noção de interioridade foi revista.
– Sabemos que a interioridade existe. O problema é que a minha interioridade não pode entrar em contato com a de outra pessoa, senão através da exterioridade – esclarece.
Determinadas questões despontaram norteando as pesquisas de Stanislavski, Grotowski e Barba.
– Como fazer um espetáculo que dialoga com a matéria escura que se agita dentro dos espectadores? Como criar uma dramaturgia evocativa que permita a quem assiste projetar suas próprias experiências biográficas? – questiona Barba. – Os espectadores se conscientizam de suas diferenças, passam a ter isto em comum.
Foi também a partir do método concebido por Stanislavski que despontou a importância da estruturação no trabalho do ator, que, só assim, estaria apto a preservar determinadas qualidades de sua interpretação a cada apresentação.
– O ator trabalha em estados de ânimo diferentes noite após noite. Ocorrem, portanto, alterações dentro da estrutura. Mas teatro é estrutura – frisa o diretor. – Reconhecemos determinado ator e, ao mesmo tempo, percebemos que não é o mesmo que no trabalho anterior. Há uma dialética entre reconhecer e ser surpreendido. É isto que faz com que um ator tenha identidade.
O modo de abordar os textos não era evidentemente ilustrativo, preocupação que pode ser detectada nas montagens de Eugenio Barba.
– Quando você lê Dostoiévski ou Thomas Mann, por exemplo, há algo explícito e algo subterrâneo, uma densidade formada pelo literal e pelo que o transcende – constata.
Diretores como Grotowski, Peter Brook e Barba trabalharam a partir da percepção de que, no século 20, o teatro perdeu espaço para o cinema e a televisão. Entretanto, eles não passaram a barganhar a atenção do espectador.
– Depois da Segunda Guerra Mundial, ficou claro que o teatro poderia desaparecer, que só era necessário a quem fazia – sublinha Barba. O teatro não era mais o espetáculo do nosso tempo, da nossa sociedade. Tornou-se uma forma arcaica que só interessa a uma minoria.
>> Em cartaz
O tapete voador
A teatralidade do humano II
Oi Futuro Ipanema, Rua Visconde de Pirajá, n° 54, Ipanema (3201-3010). Às 19h. Grátis (distribuição de senhas uma hora antes)
• Daniel Schenker | Jornal do Brasil | 2010-05-05
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