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La escena iberoamericana

Brasil. Espetáculos em cartaz no Rio oferecem interação de público e atores

Tradicionalmente, no palco ficam os atores e na plateia, os espectadores. Mas as coisas já não são tão simples assim. A tendência de romper a linha divisória entre palco e plateia torna-se evidente em trabalhos que procuram travar um diálogo mais direto e imediato com o público. Pelo menos, é o que se vê numa série de produções que despontam atualmente na cena carioca, subvertendo a rotina espacial.

Um dos principais exemplos desta tendência é A correspondência secreta, espetáculo do grupo Teatro das Possibilidades que estreia no próximo dia 26, será apresentado para 25 espectadores, que transitarão, juntamente com os atores, pelas dependências do Espaço Kreatori, em Laranjeiras. A diretora Adriana Maia já traz uma boa experiência acumulada em teatro itinerante. Participou de montagens destacadas, como O tiro que mudou a história, assinada por Aderbal Freire-Filho.

Cumplicidade imediata
– Optamos pelo formato itinerante porque é um trabalho estruturado sobre confidências de três adolescentes, que falam de conflitos próprios da idade. Diante de um material pessoal, íntimo, a proximidade com o espectador é importante – justifica a diretora Adriana Maia, referindo-se ao texto da autora paulista Índigo, que, a partir de personagens tradicionais de contos de fada descortina o universo adolescente.

Grupo que costuma incluir o espectador na cena, o XIX, conduzido por Luiz Fernando Marques, apresentou Arrufos, dentro da programação do recém-encerrado Tempo Festival das Artes, montagem que se debruça sobre a transformação na vida privada através dos séculos. Encenada numa arena, Arrufos transfere-se cada vez mais para o espaço do público à medida que os atores se misturam entre os espectadores e retiram os objetos de cena, tornando menos perceptível a delimitação entre palco e plateia.

Já Festa de separação – Um documentário cênico, dirigida pelo mesmo Marques, completa-se na presença e adesão dos espectadores. O projeto surgiu a partir do momento em que a atriz Janaína Leite e o músico Fepa decidiram se separar e aproveitar esta transição para realizar um trabalho artístico. Começaram a promover festas de separação com esse intuito, devidamente registradas pelo cineasta e jornalista Evaldo Mocarzel.

– Organizamos festas para amigos, pessoas da família e até gente que não conhecíamos – conta Fepa, músico e professor de filosofia, que nunca tinha pensado em atuar e, garante, continua não cogitando a hipótese depois dessa experiência.

Janaína e Fepa recebem os espectadores na entrada do Mezanino do Espaço Sesc, em Copacabana, e acomodam cada um num espaço divido ao meio: de um lado, o universo dele; do outro, o dela. No início da apresentação, conversam separadamente com as suas plateias e travam cumplicidade quase imediata. Oferecem bombons, creme para as mãos, contam histórias e sugerem que o público também se disponha a relatar as suas.

– Não quisemos fazer uma peça no sentido convencional, mas sim suscitar, a partir de nossas vidas, uma reflexão acerca das relações amorosas – diz Fepa, que, que contracena com imagens projetadas durante a apresentação.

Num determinado momento, Fepa convida um casal para entrar em cena e sopra no ouvido de um dos dois um texto de Regurgitofagia, de Michel Melamed.

– Sem saber, acabo adentrando o universo íntimo daqueles que assistem – constata.

Já A batalha do Saara, em cartaz no Teatro dos 4, procura inserir o público no jogo de improvisação que norteia o trabalho do Teatro Esporte Clube (TEC). Três horas antes da apresentação, às 18h, os espectadores podem aderir ao treino dos atores.

– O treino consiste em propor jogos que confrontam os participantes com dificuldades: só podem falar utilizando três palavras, ou fazendo rima – explica a treinadora Ana Ribeiro. – Depois, convidamos, sem critério definido, duas pessoas a jogar conosco durante a apresentação.

O TEC coloca em prática uma técnica de improvisação criada por Keith Johnstone.

– A cada apresentação surgem, pelo menos, oito histórias completamente diferentes – garante Ana.

O espectador também entra em cena em Os ruivos, montagem em cartaz há um ano e meio. Autores do texto, Pedro Monteiro e Leonardo Neves extraem graça do preconceito enfrentado pelos ruivos, em especial durante a fase da adolescência, e convidam a plateia a participar da brincadeira.

– Queremos que o público se sinta numa sala de estar – conta Monteiro. – Mas não temos como prever a reação dos espectadores. Numa noite, por exemplo, uma mulher subiu ao palco e me beijou.

Na temporada do Shopping da Gávea, os atores passaram a convidar uma espectadora para tingir o cabelo.

– Nossa intenção não é chamar o público para fazer números. De qualquer modo, jogamos a quarta parede no chão – realça Pedro Monteiro, aludindo à expressão referente à separação entre o espetáculo e a plateia.

• Daniel Schenker | Jornal do Brasil | 2010-06-13


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