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La escena iberoamericana

Brasil. A peça 'Antes' da companhia carioca Armazém abre o FIT Rio Preto

O Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (FIT Rio Preto) não visa à reunião de espetáculos recomendados em temporadas realizadas em cidades diversas ou de estreias badaladas. Em sua 10ª edição, que começa nesta quinta-feira, o FIT traz uma programação norteada pelo conceito de conquista da singularidade, proposto pela curadoria formada por Roberto Alvim, Gabriela Mellão, Sidnei C. Martins e Sergio Luis Venitt de Oliveira. O espetáculo de abertura já evidencia a preocupação com o diferencial. Trata-se de Antes, trabalho do grupo carioca Armazém Cia. de Teatro, concebido especialmente para o festival.

– Criamos Antes em sintonia com a pesquisa que estamos desenvolvendo para o novo espetáculo do grupo, que estreará em outubro no Centro Cultural Banco do Brasil – informa Simone Mazzer, uma das principais integrantes da companhia. – Nosso foco, neste momento, recai sobre as primeiras sensações da vida: as paixões e os ódios intensos da juventude. Às vezes, passamos pelas mesmas experiências tempos depois, mas não sentimos de maneira tão intensa. Para onde foi aquele frescor?

O espetáculo, criado especialmente para a abertura do festival, foi escrito por Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça.

– Vai ser interpretado numa grande estrutura, ao ar livre – comenta Simone. – Não vamos voltar a este texto depois do festival, mas ele funciona como um balão de ensaio para nosso próximo espetáculo.

Até dia 24, o FIT contará com apresentações de seis espetáculos internacionais e 33 nacionais, todos voltados para processos de pesquisa instigantes.

– Mais do que trazer grandes nomes, o festival prioriza a coragem da inovação – assinala Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc SP e presidente de honra do Festival de São José do Rio Preto. – Gosto de um teatro mais responsável num país em que a questão educacional é grave. Somos pouco estimulados a pensar. Falta aprofundamento no mundo. Morre José Saramago, e é um escândalo, porque se tratava de um dos últimos que faziam pensar.

Para escolher os espetáculos que integram esta 10ª edição do Festival Internacional de São José do Rio Preto, os curadores assistiram a mais de 500 montagens brasileiras em DVD.

– Procuramos valorizar espetáculos que não utilizassem procedimentos conhecidos da cultura de massa e da alta cultura – ressalta Roberto Alvim. – Escolhemos montagens que apontam para poéticas desconcertantes, portadoras de jogos não reconhecíveis.

Mas em que medida é possível deparar-se com a originalidade num momento tão saturado quanto o atual?

– Se não acreditarmos que existem veredas desconhecidas na vida e na arte, é melhor nos enterrarmos – sentencia Alvim.

Entre os destaques nacionais desta edição estão Abracadabra, performance em que Luiz Päetow acumula as funções de dramaturgo, ator, diretor e produtor; Anatomia Frozen, montagem de Marcio Aurelio para o texto de Bryony Lavery, que disseca personagens em ambiente asséptico; Lamartine Babo, texto de Antunes Filho dirigido por um de seus discípulos no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), Emerson Danesi; Marcha para Zenturo, encenação decorrente do intercâmbio entre dois grupos, o Espanca!, de Belo Horizonte, e o XIX, de São Paulo, centrado numa reunião de amigos que se reencontra para celebrar o Ano-Novo; e Hagoromo, o mato de plumas, espetáculo de dança-teatro realizado a partir da encenação de uma peça de Motokiyo Zeami, um dos mais relevantes dramaturgos do Teatro Nô.

Os espetáculos internacionais não passaram pelo mesmo processo de seleção, como explica Roberto Alvim:

– Fizemos uma lista de artistas que desenvolvem há algum tempo trabalhos singulares. Então, não convidamos propriamente espetáculos, mas selecionamos artistas.

Entre os escolhidos estão Os cegos, do canadense Denis Marleau, o americano Ode ao homem que se ajoelha, antimusical de Richard Maxwell, e Las Julietas, encenação uruguaia calcada numa recontextualização de Romeu e Julieta, de William Shakespeare.

– Para a próxima edição, quero trazer trabalhos de Claude Régy e Romeo Castellucci – adianta Alvim.

• Daniel Schenker | Jornal do Brasil | 2010-07-15


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