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La escena iberoamericana

Brasil. O ponto de mudança

Peça comemorativa da primeira década do Grupo Bagaceira reforça maturidade do coletivo, embora não demonstre toda sua potência criativa.

O diretor inglês Peter Brook, um dos papas do teatro contemporâneo, quando atinou para organizar suas memórias, batizou a coletânea de ensaios com o título de The shifting point (O ponto de mudança, em bom português). No livro, o veterano dividia com sua legião de seguidores a certeza de que viver – e, também, viver de teatro – é aceitar (e defender) determinadas questões, mesmo que, um tanto mais adiante, essas tais questões venham a ser categoricamente abandonadas. Ou seja: não há um sentido único e retilíneo nesse negócio chamado de vida. É tudo torto, um verdadeiro vai-e-vem. Eis aí um bom resumo de InCerto, peça comemorativa da primeira década do grupo Bagaceira, que se despede esse fim de semana do Sesc Senac Iracema.

Passados 10 anos de trabalho contínuo, o coletivo queria festejar a data com uma nova montagem – a última havia sido o infantil Tá namorando! Tá namorando! (2008), mas uma série de problemas internos acabou por inviabilizar o processo. Foram vários ensaios, inúmeras experiências de montagem, oficinas as mais variadas e nada. O tal do novo trabalho não nascia. Resultado: alguns integrantes desligaram-se da companhia e os sobreviventes decidiram expor ao público exatamente a realidade do que viveram. InCerto, mais uma dobradinha de Rafael Martins (texto) e Yuri Yamamoto (direção), não é propriamente uma peça. É, sim, a demonstração das dores que acompanham um processo criativo pretensamente coletivizado.

De longe, o espetáculo mais bem acabado do grupo (do ponto de vista da produção), repleto de soluções cênicas surpreendentes, InCerto não representa, no entanto, um ápice na trajetória do Bagaceira. Em muito, porque não é um espetáculo que se projeta para fora, que ambiciona provocar a plateia seja lá de que forma for; mas, sim, um espetáculo que converge para os segredos cotidianos de um bando de artistas, muitos dos quais não fazem sentido no confronto com os espectadores. InCerto é privado, não público. Assim, a montagem vale mais como um demonstrativo de um ponto de saturação, um ponto de mudança como diria Brook, canalizador de novas perspectivas e experiências criativas, que propriamente como uma obra acabada, num sentido mais objetivo.

InCerto não é uma peça que retrata a incapacidade de um grupo em realizar um novo espetáculo, é a revelação do Bagaceira de que passou (e sofreu muito) por esse processo. Delicada e muito bem organizada cênica e dramaturgicamente, a montagem perde sua força na medida em que a intimidade não rompe a barreira do hermetismo. No texto, Rafael Martins fez um excelente exercício de colagem, no qual se apropria das falas dos colegas ao longo dos ensaios e dos episódios que marcaram suas vidas pessoais no período. Alguns deles, porém, extremamente fortes, passam alheios à plateia. O aborto espontâneo que interrompeu a gestação daquele que seria o primeiro filho da atriz Cristiane de Lavor, ex-integrante do grupo, por exemplo, dói em quem sabe do ocorrido, quando, na verdade, devia dilacerar o público em geral, tendo em vista que essa dor não é particular.

Novas perspectivas
Para além dessa limitação – eu diria, uma incapacidade de revelar segredos íntimos -, InCerto tem uma qualidade muito positiva que é o fato de ser um espetáculo auto-referente. Ao longo das cenas, enquanto o esforço parece ser desnudar o cotidiano da companhia, aquilo que sempre foi de domínio público ganha novas leituras. É nítida a citação de espetáculos anteriores, o que prova que o Bagaceira tem uma história que não se restringe mais à individualidade dos seus integrantes. Como um grupo, foi construída, no decorrer dos anos, uma narrativa visual que agora permite ao espectador participar de um jogo muito interessante, procurando identificar qual a matriz de cada nova experimentação.

Como assistir à cena do desenho do alvo, sem lembrar Giz, um dos esquetes mais elogiados do repertório do grupo? Como ouvir a rima de alguns trechos do texto, sem remeter ao premiado O Realejo? Como rir da excelente performance de Yuri Yamamoto durante o fragmento da preparação corporal, sem fazer uma conexão com Meire Love? Como acompanhar o embate de Rogério Mesquita e Samya de Lavor, sem lembrar Estranhos, do mesmo Mesquita com Fabio Vieira, um dos atores que deixaram o coletivo? Enfim. Assumidamente um espetáculo comemorativo, InCerto tem um sabor de nostalgia muito refinado, porque não se prende a um tempo específico, mas, sim, aponta novas perspectivas.

Vale aqui retomar a velha ideia chavão que diz que, passada a tempestade, vem a bonança. Daí, InCerto se colocar numa dimensão fronteiriça. Entre erros e acertos, o espetáculo deixa claro que o Bagaceira pode muito mais. Bons exemplos disso são a opção do coletivo por manter Yuri Yamamoto numa função dupla entre atuação e direção, um ganho imenso; como também o trabalho de interferência (e, não, adaptação) textual feita por Rafael Martins, também no elenco da montagem, enquanto assina a dramaturgia. Ver InCerto é participar de um processo de arremate. De certa forma, o Bagaceira chega aos primeiros 10 anos finalizando um ciclo. Que venha o próximo!

SERVIÇO
INCERTO – Últimas apresentações da peça do Grupo Bagaceira, com direção de Yuri Yamamoto e texto de Rafael Martins. Hoje (31) e amanhã (1°), às 20h, no Sesc Senac Iracema (Rua Boris, 90C – Praia de Iracema). Ingressos: R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia). Outras informações: 3252 2215.

• Magela Lima | O Povo | 2010-07-31


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