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La escena iberoamericana

Brasil. Em monólogo, Marcelo Serrado tenta decifrar mente feminina com comédia

Decepções amorosas são sofrimentos universais. Tão universais que, quando surge uma peça sobre um homem que acaba de flagrar sua esposa de dez anos com outro, e conta as histórias sobre outros fracassos amorosos, certamente todos da platéia iriam se identificar com pelo menos uma. E o que aconteceria se o ator que faz essa peça também inserisse alguns de seus corações partidos? O resultado poderá ser conferido a partir desta sexta-feira, na estreia de Não existe mulher difícil, no Teatro Leblon, com Marcelo Serrado comandando o papel principal. O ator interpreta um pianista que deveria tocar em uma dessas churrascarias de pé de estrada, mas desiste depois de presenciar a traição. Então, resolve compartilhar com o público algumas histórias vergonhosas que viveu ao longo de sua vida com as mulheres.

– Ele só arranja mulher louca – conta Serrado. – Tem a atriz que só pensa nela mesma e em treinar o roteiro de Malhação, a patricinha que só dá atenção para as bolsas de marca, a natureba que quer fazer sexo tântrico...

Apesar de ser um monólogo, a comédia não se aproxima do stand-up.

Questão de ritmo
– O que faz a peça ser realmente engraçada são justamente essas histórias doidas do protagonista. Apesar de serem exageradas, acho que todo mundo quando assiste à peça pensa “ih, já vivi isso!” Porque realmente essas coisas acontecem – explica Serrado, que vê pitadas de Woody Allen no texto, já que, assim como o diretor novaiorquino, incorpora fatos da própria vida na ficção.

Não existe mulher difícil é o primeiro monólogo do ator no teatro. Mas como já havia atuado sozinho em alguns quadros, a experiência não foi tão intimidadora quanto parecia ser. Pelo contrário, houve até seus pontos positivos:

– Monólogos são bons porque rola uma questão de ritmo. A gente acaba ditando o nosso próprio ritmo, fora que essa solidão pode ser bacana também. Já estava na hora de fazer uma peça sozinho.

O roteiro é uma adaptação do livro de André Aguiar Marques, feita por seu amigo Lucio Mauro Filho. A amizade de Mauro Filho vem de outra peça, a No retrovisor, que considera importantíssima para suas carreiras.

– Temos uma anarquia louca que funciona muito bem na hora de bolar a peça – define o ator. – Isso traduz na peça, ela é pouco convencional. Eu entro já de fora do palco, interajo com o público...

Enquanto escrevia a adaptação, Serrado sugeriu a Lucio que incluísse alguns toques pessoais dele:

– Tem muito do Marcelo no texto – admite o ator. – Tentei incluir histórias que eu já vivi de alguma maneira. Escrevia alguns textos para cenas e enviava paro o Lucio. E ele também, apesar de ser uma adaptação de um livro, incluiu muito dele na história. Principalmente muito daquele senso de humor único dele, que eu acho que faz a peça ser mais interessante ainda.

Serrado, porém, não se identifica com o personagem principal:

– É um bobo, tem muito o que aprender. Ele é o cara que transa e manda flores no dia seguinte, sai para tomar um chope e já diz que ama, fica amiguinho das mulheres. Só que mulher pisa em cima de amiguinho. Usa quando precisa, mas na hora da conquista sai fora. Por outro lado, o personagem tem essa coisa do romântico, que eu também tenho. Também tentei pegar citações de amigos homens meus, do mais cafajeste ao mais romântico. São citações ótimas, como “mulher não trai, se vinga”. Já vi até mulher bater palma na hora.

O título da peça gerou certa polêmica, já que pode evocar temas machista. Serrado, porém, garante que se trata apenas “de uma demonstração de amor pelas mulheres”.

Sem machismo
– O subtítulo da peça é “Um guia de sobrevivência para entender as mulheres”, ou seja, é muito mais uma tentativa de solucionar o quebra-cabeças do sexo feminino do que de ser grosseiro.

Se é o protagonista que está fazendo tudo errado ou se as mulheres que estão, de fato, mais malucas, não dá pra saber. A verdade é que, para o ator, a peça é apenas uma brincadeira com as mulheres... e também com os homens.

– Sou romântico, mas não desisto, assim como o meu personagem na peça. Afinal, temos que acreditar, né!

• Julia Corson | Jornal do Brasil | 2010-08-13


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