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La escena iberoamericana

Brasil. Licio Bruno e Ruth Staerke interpretam personagens de Artur Azevedo

Quando foram ao Theatro Municipal à cata de material para a montagem de O mambembe (que inauguraria, em 1959, a companhia Teatro dos Sete), o diretor Gianni Ratto e os atores Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sergio Britto e Ítalo Rossi foram surpreendidos com uma proposta inusitada: apresentar o espetáculo no suntuoso palco do Municipal.

Seria um modo bastante adequado de comemorar os 50 anos do Theatro. E de festejar a figura de Artur Azevedo, grande incentivador do surgimento do Theatro Municipal, projeto que não viu concretizado, uma vez que morreu em 1908, um ano antes da inauguração. Agora, Azevedo volta à tona com a deliciosa Amor por anexins, que acaba de estrear no Teatro Café Pequeno, em montagem que conecta o brilho da escrita do autor com o canto lírico.

Paixão antiga
Sob a direção de Gustavo Ariani, o barítono Licio Bruno e a soprano Ruth Staerke interpretam o solteirão Isaías e a viúva Inês. Isaías só sabe se expressar através de provérbios e ditados populares (os anexins do título), o que irrita e exaspera Inês. Ela o desafia a não falar anexins durante meia hora em troca de sua mão.

– Na noite de 14 de julho de 2009, data do aniversário de 100 anos do Theatro Municipal, saímos da Cinelândia e fomos jantar no Largo do Machado. Como um dos criadores do Theatro, Artur Azevedo estava no ar. No meio do jantar, Licio, que já tinha trabalhado comigo em A flauta mágica, em 2006, apresentou-me a Ruth – conta Ariani, referindo-se ao espetáculo em que foi assistente de direção de Moacyr Góes. – Disse que ambos queriam fazer um trabalho mais ligado ao teatro. Na hora, perguntei, do nada, se conheciam Amor por anexins. Com a ajuda da internet do celular, achamos o texto e, ali mesmo, lemos um trecho da peça. Foi um pacto imediato.

A paixão pelo texto de Azevedo, escrito em 1872 e encenado no Rio de Janeiro, pela primeira vez, em 1879, é antiga.

– Amor por anexins é eterno. O atrativo da ingenuidade é só um deles. Há também a fina inteligência, o humor elegante, a sabedoria dos anexins e a genialidade do autor. É um clássico brasileiro – elogia Gustavo Ariani.

A nova montagem explora a influência que as comédias francesas e operetas exerceram sobre o teatro brasileiro na segunda metade do século 19. O roteiro musical incorpora árias ícones de óperas de Verdi, Rossini, Donizetti, Mozart e Puccini, além de modinhas de Carlos Gomes e canções de Lamartine Babo e Zequinha de Abreu, tudo embalado pelo piano de Aurélio Vinícius Melleh.

Para viabilizar o projeto foi fundamental a formação musical de Ariani.

– Não tinha muita ligação com o mundo lírico. Quando terminei a minha segunda temporada na Escola de Música da UFRJ e me formei em Regência, em dezembro de 2003, tive a sorte de ser convidado por Góes para A flauta mágica. A partir daí, emendei outras produções, colaborando com diretores como Aderbal Freire-Filho e o Sergio Britto. Em novembro de 2006, voltei a Mozart ao dirigir a remontagem de A flauta mágica. Foram três anos de Theatro Municipal, muito aprendizado e muitas amizades – lembra.

Em Amor por anexins, assumiu o risco da direção.
– Dirigir é uma equação que envolve técnica, estratégia, imaginação e questões de relação que exigem treinamento. Vejo que tenho bastante a aprender. Na condução da criação, da equipe e, principalmente, dos atores – observa.

Espaço aberto
Nos últimos tempos, Gustavo Ariani vem se multiplicando. Além do envolvimento com Amor por anexins, produziu a bem-sucedida montagem de David Herman para Pedras nos bolsos, de Marie Jones, atualmente em cartaz no Teatro Poeira. E permanece como um dos sócios à frente da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), escola de formação de atores que, em breve, se tornará curso superior com a inauguração de uma nova casa, na Glória.

– Felizmente, tenho conseguido abrir espaço para fazer teatro. Com música sempre ao redor, é claro – comemora.

Em cartaz
Amor por anexins
Av. Ataulfo de Paiva, 269, Leblon (2294-4480). 6ª a dom., às 21h. R$ 30 (estudantes e idosos pagam meia). 18 anos. Até 12 de setembro.

• Daniel Schenker | Jornal do Brasil | 2010-08-21


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